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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Opinião: Dalai-Lama: Autobiografia


A próxima reunião do clube de leitura de que faço parte tem como tema Biografia. Confesso que este não é um género que me puxe muito para ler, por norma não tenho qualquer curiosidade para saber o como foi a vida de pessoas "famosas".
Mas reconheço que estava com uma visão muito limitada das biografias, já que estas podem ser sobre figuras muito interessantes, não propriamente muito famosas ou "da moda". Nada contra com quem leia e goste, simplesmente eu não sinto essa vontade ou curiosidade.
Foi então que me lembrei do Dalai Lama, uma personagem que conhecia pouco: sabia que é o líder espiritual do Tibete, país (ou região) que foi anexada pela China, que vive no exílio e ganhou um Nobel da paz.
Nesta autobiografia fiquei a conhecer melhor o drama que o povo tibetano sofreu (e ainda sofrerá? Tenho de pesquisar, dado que este livro foi publicado há 20 anos), como é que aquele rapazinho de 2 ou 3 anos foi reconhecido como reencarnação do Dalai Lama, como foi a sua educação, a sua ida para o exílio, os usos e costumes deste povo maioritariamente budista e o grande apoio que receberam da Índia, onde foram criadas aldeias para os refugiados e cujo governo os auxiliou bastante.
Não foi um livro fácil de ler, apesar de ter poucas páginas, a letra é muito pequena, a escrita é muito densa, com termos e nomes em tibetano e sânscrito. No entanto, o facto de praticar Yoga-Samkhya (onde são utilizadas algumas designações que surgem neste livro) e a leitura previa do livro Cisnes selvagens ajudou-me a perceber melhor algumas passagens e a formar uma imagem mais clara na minha mente.
Fiquei com vontade de ler outros livros escritos pelo Dalai Lama e outros sobre o budismo e sobre o Tibete.
Ler também é isto, aumentar os horizontes, viajarmos até outras realidades e percebermos melhor o mundo.



terça-feira, 7 de maio de 2019

Opinião: Malditos, histórias de homens e de lobos




Um pequeno livro, de não ficção (romanceada) que fala de lobos, da sua relação com o homem.
Ao ler senti quase como se estivesse a ver um documentário sobre esta espécie e sobre a vida numa serra, algures no norte de Portugal.
São somente 72 páginas, pelo que o tema não é muito aprofundado, mas considero uma boa leitura, para iniciar ao tema ou, no mínimo, ficarmos com uma ideia geral da problemática: a protecção de uma espécie ameaçada e a sua relação com quem (ainda) habita naquelas regiões.
Recomendo a leitura, até porque o preço é simpático e a FMS tem muitas vezes os livros em promoção.

⭐⭐⭐⭐

sexta-feira, 29 de março de 2019

Opinião: Persépolis


Esta foi a minha estreia em "graphic novels" para adultos (que é como quem diz, banda desenhada) e não desiludiu.


É um relato autobiográfico que retrata a vida de Marjane Satrapi, a sua infância no Irão, a passagem pela vida em Viena e o regresso ao Irão.
Neste livro somos confrontados com a revolução Iraniana, a guerra, o aumento da repressão sobre as populações (não podem beber, fazer festas, jogar, ... ).
Com um sentido de humor caustico, algumas passagens fazem-nos rir, outras levam-nos às lágrimas mas todo o livro nos faz reflectir sobre a realidade iraniana e os nossos preconceitos por esta zona do globo.
Para além da vida no Irão, relata também as dificuldades do crescimento de uma jovem, dividida entre a modernidade e a tradição, a sua revolta e o voltar às origens.
Sem duvida que recomendo.
☆☆☆☆☆




Persépolis em grego clássico: Περσέπολις; transl.: Persépolis , lit. "A cidade persa"

terça-feira, 12 de março de 2019

Opinião: A menina que sorria contas, de Clemantine Wamariya

“É estranho como se começa por ser uma pessoa longe de casa e se passa a ser uma pessoa sem casa. O lugar que, supostamente, nos devia receber expulsa-nos. Nenhum outro lugar nos acolhe. É-se indesejado, por toda a gente. É-se um refugiado.”


Mais um livro de não-ficção e mais um tema "pesado".
Clemantine era uma criança de 6 anos quando teve de fugir de casa com a irmã, de 16, por motivos que na altura não compreendeu.

Foi quando os pais começaram a falar baixo, a ficar mais por casa, os vizinhos começaram a desaparecer.... fuga causada pelo inicio do genocídio do Ruanda, uma história sangrenta que parece quase impossível: pessoas que matavam desconhecidos, vizinhos, amigos e até familiares, simplesmente por terem uma etnia diferente!

No livro temos uma Clemantine atual (cerca de 30 anos) que conta a fuga com a irmã Claire, como se sentia assustada, abandonada, carente de afeto mas impossibilitada de também ela dar esse afeto, devido às constantes fugas, ao constante medo.
Ela e a irmã andaram a circular entre campos de refugiados, entre diversos países (mais de 4000 km). Claire casou teve filhos, mas percebemos que Claire é que é a guerreira, é quem toma conta da família, através do seu empreendedorismo. (O marido é um parvalhão que lhe bate e a trata mal). E é graças à proactividade de Claire que elas conseguem ir para os Estados Unidos da América, onde Clemantine é acolhida por uma família e consegue assim estudar e tirar um curso superior.

O livro alterna entre recordações do passado, da fuga, da vivência nos campos de refugiados e outros locais igualmente tenebrosos, da fome, dos piolhos, de outros parasitas que as atacavam, ... e recordações do inicio da vida na América, do seu percurso escolar, da revolta, o fingir que tem tudo controlado quando afinal está completamente destruída por dentro.

Logo no inicio do livro temos o reencontro das duas irmãs com a família, num programa da Oprah. Apesar da emoção, percebemos que são todos estranhos uns para os outros, todos têm o seu trauma interior que, percebemos mais tarde, não conseguem partilhar uns com os outros. 

Outros pontos de destaque do livro: 
- o tratamento dado às mulheres na sociedade dela (cuidado para não seres violada, pois ficas "estragada"; aguenta o teu marido que te bate, quando os filhos crescerem ele deixará de o fazer, pois quer agradar aos filhos; os "miúdos" de galinha que elas nunca tinham provado, pois eram reservadas aos homens, tal como a comida, que era prioritariamente dada a eles, ....). 
- as leituras que ela faz de temas ligados ao holocausto, fiquei com mais algumas sugestões de títulos/autores a ler.
- a descrição de alguns hábitos da sociedade Ruandesa


Um livro que merece a sua leitura.
☆☆☆☆☆

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião: Escrava, de Mende Nazer

Este livro conta a história real, que infelizmente ainda acontece no Sudão: crianças e mulheres que são retiradas das suas aldeias (raptadas) para serem vendidas como escravas.
Foi o que aconteceu a Mende, que pertencia à tribo Nuba, no Sudão do Sul. Retirada à força da sua família, num assalto violento à sua aldeia, foi raptada e vendida como escrava para uma família árabe
do Sudão. Uma prática que percebemos ser comum nesse país, onde ocorre uma grande descriminação sobre estas tribos e minorias étnicas.
Com cerca de 12 anos, Mende deixa de ter infância, passando a trabalhar dia e noite na casa dos seus "donos", que apenas lhe "oferecem" dormida num barracão sem quaisquer condições, restos das refeições e muitos maus tratos físicos e verbais.

No seu relato, percebemos que a vida de escravatura vai a pouco e pouco destruindo o seu ser, para além de deixar de ter infância é como se deixasse de ter identidade própria. Ela refugia-se nas memórias felizes da sua infância, numa tentativa de manter a sua sanidade mental.
Só quando é enviada para Londres (passada como escrava para a irmã da anterior "dona") é que consegue escapar.

É realmente um retrato perturbador e é também perturbador pensar que nos dias de hoje esta é uma realidade de muitas crianças, cuja infância lhes é retirada.
Na primeira parte do livro temos uma descrição da infância de Mende onde surge o relato da sua circuncisão (impressionante), mas também vemos que teve uma infância feliz, cheia de sonhos como qualquer criança. A segunda parte é o relato da vida de escravatura, onde acredito que nem metade do que sofreu seja relatado.

Triste pensar que esta é uma realidade que ainda existe, milhares de crianças (e mulheres) que são forçadas à escravatura, de forma quase aberta nessa sociedade. Sem direitos, sem identidade.



☆☆☆☆☆

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Opinião: A Guerra não Tem Rosto de Mulher de Svetlana Aleksievitch





O que dizer deste livro? Parti com expectativas altas que foram totalmente superadas.

Não é um romance, mas sim uma compilação de relatos na primeira pessoa, relatos comoventes, brutais, sobre a experiência feminina na guerra.

Raparigas jovens, algumas nem os 16 anos tinham, alistavam-se na guerra para ajudar a salvar o seu país das garras de Hitler. Com ideias românticas, que seriam capazes, tão capazes como os homens. Queriam ir para a frente da batalha…


“Na primeira vez dá medo… Muito medo… deitámo-nos e fiquei a observar. E então vi um alemão a levantar-se nas trincheiras. Eu apertei o gatilho e ele caiu. Nesse momento eu tremia inteira, ouvia os meus ossos a bater. Comecei a chorar. Quando treinava não tinha problemas, mas nessa altura: eu matei! Eu! Matei uma pessoa que não conheço. Não sei nada sobre ele, mas matei-o.”




Os relatos são impressionantes, relatos de fome, (da população em geral e de quem guerreava), de privações, de esforço físico que muitas vezes as levava a “deixarem de ser mulheres”.

Impressionaram-me relatos de mulheres com filhos, destaco um em particular (mas há muitos mais):

“Passámos alguns dias, semanas, com água à altura do pescoço. Havia connosco uma operadora de rádio que tinha tido um filho à pouco tempo. A criança estava com fome… Pedia o peito. Mas a própria mãe estava a passar fome, não tinha leite e a criança chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham cães … Se estes ouvissem, todos nós morreríamos. Todo o grupo, umas trinta pessoas. Entende? O comandante tomou a decisão… Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou-a ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”


No final os relatos começam a aproximar-se do dia da Vitória, surgem outro tipo de memórias, outro tipo de atrocidades (prisioneiros, torturas, mais fome e miséria, mais bebés e crianças...), mas também de injustiças… a forma como as mulheres foram tratadas no pós-guerra, levadas quase a esconder a sua condição de ex-soldados, o considerar quem esteve preso pelo “inimigo” e sobreviveu um traidor, alvo de suspeitas...

Este foi um livro muito difícil de ler, fui intervalando com outras leituras mais ligeiras… mesmo agora, que já passaram mais de 15 dias de ter terminado esta leitura, torna-se doloroso relembrar alguns relatos…
☆☆☆☆☆


Nunca tinha lido nada desta autora, vencedora do Nobel da literatura 2015, mas sem dúvida que ficou na minha lista de autores favoritos...



terça-feira, 13 de março de 2018

Opiniões: Cisnes Selvagens, de Jun Chang

Li este livro para a #ML122dias e a #marçofeminino, foi uma escolha ao acaso mas uma boa escolha.

Esta é uma história verídica sobre três gerações de mulheres, avó, mãe e filha, nascidas sobre o regime de Kuomintang, atravessando as convulsões da guerra civil chinesa e mais tarde o regime de Mao Tse-tung

Li uma review que dizia que este é um livro cheio de desgraças folha após folha, o que é uma boa descrição.
A avó nascida numa época que as mulheres pouco valiam (numa parte do livro é dito que a sua própria mãe “rezava” para que reencarnasse como um animal e não como mulher), as concubinas, o opio...
Depois o partido comunista sobe ao poder e é impressionante como este comandava a vida pessoal dos cidadãos, como as ideias de Mao mudavam ao sabor de sabe-se lá o quê e como foram cometidas tantas injustiças.

Era mal visto que as pessoas tivessem afeto pela família e que esse afeto se sobrepusesse aos interesses do partido, tudo podia de alguma forma “ofender o partido”. Pessoas que foram torturadas ou assassinadas por suspeitas mínimas (ou por vezes puras vinganças pessoais).

A Campanha Antidireitista, onde havia metas para serem encontrados “direitistas” (que poderiam vir a sofrer tortura, trabalhos forçados ou mesmo ser condenados à morte), O Grande Salto em Frente (inflacionamento irreal da produção alimentar, incentivo à produção de aço e posterior abandono da produção agrícola, o que resultou um grande período de fome), a Revolução Cultural (com a perseguição aos professores, destruição do sistema de ensino, de livros, de marcos culturais).

A falta de assistência médica de qualidade, a baixa instrução do povo (em especial dos camponeses), mais tarde, quando se mostrou a necessidade de qualificar alguns cidadãos, era o partido a decidir quem entrava na faculdade e para que curso (Mao não gostava de exames e os cidadãos não podiam ter gostos próprios - tudo tinha de ser feito em prol do interesse superior do partido), se a pessoa pode ir para as cidade ou fica no campo, os casais que estão geograficamente separados e apenas se podem ver durante 12 dias ao ano.

E a devoção a Mao, quase endeusado.

Uma devoção causada pela eliminação da cultura, nas escolas apenas estudavam o Livro Vermelho de Mao e o Diário do Povo (jornal oficial do partido comunista chinês), que logicamente enalteciam as virtudes do ditador e as suas ideias.

Confesso que desconhecia totalmente a história da China, fiquei muito impressionada com o que li. Certas partes fizeram-me recordar os livros sobre o Holocausto e a vida nos campos de concentração (a fome, os trabalhos forçados a troco de quase nada,…).

Não é um livro fácil de ler, quer pelo tema quer pela escrita, mas é um livro que deveria ser lido por mais pessoas.






☆☆☆☆