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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Opinião: A Guerra não Tem Rosto de Mulher de Svetlana Aleksievitch





O que dizer deste livro? Parti com expectativas altas que foram totalmente superadas.

Não é um romance, mas sim uma compilação de relatos na primeira pessoa, relatos comoventes, brutais, sobre a experiência feminina na guerra.

Raparigas jovens, algumas nem os 16 anos tinham, alistavam-se na guerra para ajudar a salvar o seu país das garras de Hitler. Com ideias românticas, que seriam capazes, tão capazes como os homens. Queriam ir para a frente da batalha…


“Na primeira vez dá medo… Muito medo… deitámo-nos e fiquei a observar. E então vi um alemão a levantar-se nas trincheiras. Eu apertei o gatilho e ele caiu. Nesse momento eu tremia inteira, ouvia os meus ossos a bater. Comecei a chorar. Quando treinava não tinha problemas, mas nessa altura: eu matei! Eu! Matei uma pessoa que não conheço. Não sei nada sobre ele, mas matei-o.”




Os relatos são impressionantes, relatos de fome, (da população em geral e de quem guerreava), de privações, de esforço físico que muitas vezes as levava a “deixarem de ser mulheres”.

Impressionaram-me relatos de mulheres com filhos, destaco um em particular (mas há muitos mais):

“Passámos alguns dias, semanas, com água à altura do pescoço. Havia connosco uma operadora de rádio que tinha tido um filho à pouco tempo. A criança estava com fome… Pedia o peito. Mas a própria mãe estava a passar fome, não tinha leite e a criança chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham cães … Se estes ouvissem, todos nós morreríamos. Todo o grupo, umas trinta pessoas. Entende? O comandante tomou a decisão… Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou-a ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”


No final os relatos começam a aproximar-se do dia da Vitória, surgem outro tipo de memórias, outro tipo de atrocidades (prisioneiros, torturas, mais fome e miséria, mais bebés e crianças...), mas também de injustiças… a forma como as mulheres foram tratadas no pós-guerra, levadas quase a esconder a sua condição de ex-soldados, o considerar quem esteve preso pelo “inimigo” e sobreviveu um traidor, alvo de suspeitas...

Este foi um livro muito difícil de ler, fui intervalando com outras leituras mais ligeiras… mesmo agora, que já passaram mais de 15 dias de ter terminado esta leitura, torna-se doloroso relembrar alguns relatos…
☆☆☆☆☆


Nunca tinha lido nada desta autora, vencedora do Nobel da literatura 2015, mas sem dúvida que ficou na minha lista de autores favoritos...



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Opinião: O Ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago




José Saramago é um dos meus autores favoritos, já li a maior parte dos romances dele:

e ainda um livro de contos:

O Ano da Morte de Ricardo Reis conta a história deste heterónimo de Fernando Pessoa, que regressa a Portugal quando recebe a noticia do falecimento do grande poeta.
Ao longo do livro são-nos dados vislumbres do que era a sociedade portuguesa nessa época (1935/1936), a politica, as cheias, o culto de Fátima, os festejos do carnaval e ano novo, alguma visão do papel feminino... também recebemos notícias da conjuntura internacional, Espanha, Itália, Alemanha...
No livro encontramos citações à obra de Fernando Pessoa (e seus heterónimos), a Camões...

Como é recorrente nos livros de Saramago, neste também temos uma componente de "ficção cientifica", Pessoa encontra-se com Ricardo e explica que, depois da morte, terá 9 meses para andar na terra, podendo ser ou não visto pelas outras pessoas, pelo que estas duas personagens (mortas ou vivas?) conversam diversas vezes.
Há duas personagens femininas, Lídia (que é também o nome de uma "musa" de Ricardo Reis) e Marcenda, Lídia uma mulher forte, criada na pensão onde Ricardo fica alojado (mas age de uma forma demasiado submissa para o meu gosto feminista, chega a irritar-me algumas vezes...), Marcenda uma mulher jovem, com o braço esquerdo inerte...

A escrita é a habitual de Saramago, parágrafos longos, sem introdução aos diálogos. Mas é uma escrita apaixonante, conseguimos perfeitamente imaginar os cenários descritos. ☆☆☆☆



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Não há duas...

... sem três!

Mais uma maratona literária, desta vez do Café Literário: "ICED COFFEE".
São 12 desafios com 7 desafios bónus:

As regras constam no blog e página do facebook.
Vou participar, tentando encaixar os livros que já estou a ler para as restantes maratonas.
No fundo, é só uma forma de ler mais livros :)