Não é um romance, mas sim uma compilação de relatos na primeira pessoa, relatos comoventes, brutais, sobre a experiência feminina na guerra.
Raparigas jovens, algumas nem os 16 anos tinham, alistavam-se na guerra para ajudar a salvar o seu país das garras de Hitler. Com ideias românticas, que seriam capazes, tão capazes como os homens. Queriam ir para a frente da batalha…
“Na primeira vez dá medo… Muito medo… deitámo-nos e fiquei a observar. E então vi um alemão a levantar-se nas trincheiras. Eu apertei o gatilho e ele caiu. Nesse momento eu tremia inteira, ouvia os meus ossos a bater. Comecei a chorar. Quando treinava não tinha problemas, mas nessa altura: eu matei! Eu! Matei uma pessoa que não conheço. Não sei nada sobre ele, mas matei-o.”
Os relatos são impressionantes, relatos de fome, (da população em geral e de quem guerreava), de privações, de esforço físico que muitas vezes as levava a “deixarem de ser mulheres”.
Impressionaram-me relatos de mulheres com filhos, destaco um em particular (mas há muitos mais):
“Passámos alguns dias, semanas, com água à altura do pescoço. Havia connosco uma operadora de rádio que tinha tido um filho à pouco tempo. A criança estava com fome… Pedia o peito. Mas a própria mãe estava a passar fome, não tinha leite e a criança chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham cães … Se estes ouvissem, todos nós morreríamos. Todo o grupo, umas trinta pessoas. Entende? O comandante tomou a decisão… Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou-a ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”
No final os relatos começam a aproximar-se do dia da Vitória, surgem outro tipo de memórias, outro tipo de atrocidades (prisioneiros, torturas, mais fome e miséria, mais bebés e crianças...), mas também de injustiças… a forma como as mulheres foram tratadas no pós-guerra, levadas quase a esconder a sua condição de ex-soldados, o considerar quem esteve preso pelo “inimigo” e sobreviveu um traidor, alvo de suspeitas...
Este foi um livro muito difícil de ler, fui intervalando com outras leituras mais ligeiras… mesmo agora, que já passaram mais de 15 dias de ter terminado esta leitura, torna-se doloroso relembrar alguns relatos…
☆☆☆☆☆
Nunca tinha lido nada desta autora, vencedora do Nobel da literatura 2015, mas sem dúvida que ficou na minha lista de autores favoritos...



