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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Opinião: A Cadela, de Pilar Quintana

Descrever este livro não é facil, pois é daqueles com histórias aparentemente banais, mas que nos fazem sentir e refletir.
Damaris é uma mulher pobre que sempre desejou ter filhos, sem no entanto o conseguir. Adota uma cadelinha recém nascida, dá-lhe muito amor mas essa relação vai mudar, acompanhando a espiral descendente da personagem. A relação entre Damaris e a cadela é quase de mãe-filha, mas lidar com as expectativas e desilusões nem sempre é fácil.
Rogélio, o marido, no inicio é apresentado como uma pessoa má, que gosta de massacrar os seus cães, no entanto tem atitudes tão ternas e compreensivas que nos leva de algum modo a esquecer a falta de empatia com os seus animais.
Ao longo da narrativa vamos conhecendo o passado de Damaris e outros acontecimentos que ocorreram no local, percebemos que carrega um fardo pesado e esse passado, conjugado com a impossibilidade de ser mãe e o desmoronar do casamento, levam igualmente ao desmoronamento da personagem.
Destaque ainda para as descrições da pobreza local, o estado tempo, fauna e flora locais que, sem serem exaustivos, nos levam a viajar até à Colômbia e quase sentirmos as picadas dos insetos locais.
Um livro muito bem escrito, que se lê num ápice.



sábado, 1 de maio de 2021

Opinião: Fantasmas de Oxford



Felicity é uma menina com mutismo seletivo, Nick, o seu pai, é o novo diretor de um colégio de Oxford e Mariah, a madrasta, trabalha com papel de parede (neste livro percebemos que papel de parede pode ser muito importante 😬).

Tendo pouco tempo para cuidar de crianças contratam Dee como ama de Felicity. Mas cedo percebemos que todos têm segredos, incluindo a própria casa...
O livro inicia-se com o desaparecimento de Felicity e quase toda a história é contada por Dee, durante o interrogatório da policia.
Apesar de algumas passagens que achei excessivamente descritivas, este é um livro cheio de pormenores interessantes: a história de Oxford e dos seus cemitérios, a critica subjacente a instituições obsoletas, as referências a outros autores.
Todos têm segredos que vão sendo revelados.
Será Dee heroína ou vilã?
E onde está Felicity?

Gostei bastante desta leitura e, mesmo à distância, continuo com duvidas sobre a personagem Dee, pareceu-me mesmo um pouco psicopata. Se o pai e a madrasta são figuras paternais ausentes e algo despreocupadas, a Dee é exatamente o oposto e em alguns momentos achei que estava a ter atitudes excessivas para a sua função. Outra personagem com importância na trama é Linklater, amante de histórias de fantasmas e cemitérios e que vai investigar a história da casa, descobrindo alguns pormenores macabros sobre a mesma.
O ambiente deste livro daria certamente um bom filme de suspense, mas enquanto não o vemos no ecrã podem adquiri-lo no site da wook
⭐⭐⭐⭐

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Opinião: Os pilares da Terra, Volume I

 

SINOPSE

A trama centra-se no século XII, em Inglaterra, onde um pedreiro persegue o sonho de edificar uma catedral gótica, digna de tocar os céus. Em redor desta ambição soberba, o leitor vai acompanhando um quadro composto por várias personagens, colorido e rico em acção e descrição de um período da Idade Média a que não faltou emotividade, poder, vingança e traição

 


No início tive dificuldade em entrar na história. Para além de os primeiros capítulos serem um pouco enfadonhos talvez não me apetecesse viajar para a idade média. Mas estes livros foram-me emprestados em dezembro, portanto senti alguma pressão em iniciar a leitura dos mesmos.

No entanto, com o avançar da leitura percebi o porquê de ser um livro amado por muitos: a escrita é simples, sem grandes floreados e contém descrições muito interessantes sobre o modo de vida na época.

Estão igualmente presentes todos os ingredientes necessários para uma história interessante: romance, intrigas e violência, bem como algumas descrições de torturas medievais, tema que sempre me fascinou (aquele fascínio pelo macabro e o pior da humanidade). Mas tudo com conta, peso e medida.

Uma das personagens principais é Tom Pedreiro, que tem o sonho em vir a construir uma catedral, razão pela qual não aceitou um lugar fixo como pedreiro, preferindo ir em busca do seu sonho. No inicio do livro ele está ocupado a construir uma casa para um fidalgo que se irá casar, e a expectativa é que essa tarefa dure o suficiente para se manter a si e à sua família durante o inverno. Mas o casamento é anulado, os trabalhadores despedidos e ele vê-se em apuros para conseguir sustentar a família (constituída pela esposa grávida e dois filhos), o que os leva a errar de terra em terra em busca de trabalho, com a fome a ser uma presença constante.

Aliás, pobreza e fome são temas recorrentes neste livro, o que nos leva a refletir sobre as dificuldades sentidas por quem viveu nessa época e não teve a sorte de nascer em “bom berço”.

Para além do povo, temos personagens que representam o clero, tais como o Prior Phillip ou os gananciosos Bispos Henry e Waleran. A realeza também está representada, com a abominável família Hamleigh e os caídos em desgraça Shiring.

Gostei bastante, já tenho o 2º volume que irei ler em breve, assim que terminar as mil e umas leituras conjuntas em que estou a participar!

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Opinião – Apneia, de Tanha Ganho

Ia para esta leitura com algumas expectativas, já que a grande maioria das opiniões é bastante favorável. Talvez tenha sido esse o erro.

É a história de um casal com um filho, cuja relação entra em rotura e se separam. Mas essa separação não é consensual, havendo aqui uma posição claramente dominadora do Alessandro sobre a Adriana. Inicialmente a guarda é conjunta, mas como Alessandro tem um trabalho que exige várias viagens, existe o risco de ele mudar de país, pelo que ambos lutam em tribunal pela custódia do filho.

O Alessandro aqui é retratado como o vilão, fazendo a vida negra à Adriana e, por arrasto, ao filho.

A Adriana é representada como uma mulher que tudo vai aguentando, lutando pela custódia do filho (e às vezes parece ser bastante ingénua).

A premissa é boa e a história está bem contada (apesar de algumas incongruências), no entanto tornou-se demasiado grande e massudo. Como se a personagem do Alessandro encarnasse todos os homens filhos-da-put@ que querem moer a cabeça às ex-companheiras, usando os filhos como arma de arremesso. E o azar da Adriana com os técnicos e os advogados também me pareceu algo exagerado.

O final é algo abruto e o twist que a autora lhe dá parece ter sido feito unicamente para dar um fim à situação, quase como se a história estivesse tão enrolada que já não havia uma solução à vista.

Admito que provavelmente a ideia será causar no leitor cansaço, simulando o desgaste que estes processos causam aos seus intervenientes. Mas menos 300 páginas e provavelmente o livro seria melhor apreciado.


Gostei da referência às obras de arte e de literatura, bem como o estilo de escrita. Apesar de não ficar nos meus favoritos fiquei com vontade de ler outras obras da autora. 3 ⭐

Apneia




sexta-feira, 9 de abril de 2021

Pássaros na Boca - Opinião sobre alguns contos

 Já não me recordo o que me levou a querer ler este livro, mas esteve na minha lista de desejos durante bastante tempo. Comprei na booktique (se prezam o vosso dinheiro, não visitem a página) mas também está disponível na wook com uma nova roupagem :) 

Estou a gostar bastante, são um misto de realismo mágico, surrealismo, loucura e horror.





quarta-feira, 7 de abril de 2021

Opinião "Campo de Sangue", de Dulce Maria Cardoso

No final desta leitura fiquei com a sensação de ser uma história contada ao contrário: logo no início somos apresentados às personagens e sabemos que estão ali porque ele cometeu um crime. Mas que crime e quais as motivações?

Um livro cheio de pequenos pormenores em que cada frase nos faz pensar e refletir. A louca da pensão, o tempo e o relógio, a obsessão pela rapariga bonita, o corte no pé, o sangue.
As personagens femininas que no fundo não são o que parecem: a mãe não assume esse papel, a ex-mulher quer ser amante, a dona da pensão gere um estabelecimento decrépito, a rapariga bonita talvez não seja quem ele julga que ela é.
Fiquei fascinada pelo tipo de escrita e vou certamente ler mais desta autora.

Disponível nas livrarias habituais mas podem adquirir na wook (tenho link de affiliado, se quiserem  comprar carreguem aqui. Muito agradecida 😄 )


domingo, 28 de março de 2021

Preconceitos Literários e opinião "Não sei nada sobre o amor", de Júlia Pinheiro

 Nunca me achei esquesita com as leituras e muito menos preconceituosa, mas há pouco tempo dei comigo na duvida se deveria ler um determinado livro, somente por considerar que aquela autora nunca poderia escrever boa literatura. Uma figura publica, que apresenta programas de entreternimento ligeiro...

Na verdade, o caso foi de tal ordem que até tinha uma certa "vergonha" em divulgar que estava  a ler esse livro. Como é possivel ter estes preconceitos em pleno seculo XXI? Pois...

Trata-se do livro "Não sei nada sobre o amor", de Júlia Pinheiro, um livro que adorei, quer a escrita (acessivel mas nada simplista) quer a história: três gerações de mulheres que vivem em diferentes épocas, utrapassando diferentes preconceitos: quer da sociedade, quer delas próprias. 

A primeira mulher, vitima de um equivoco, de uma educação rigida, que nada sabe sobre o amor, sobre o sexo.

Uma segunda mulher, que julga saber mais do que a primeira, mas que acaba por cair em armadilhas que ela própria criou.

Uma terceira mulher que, ao querer fugir da sina das anteriores, acaba ela própria por cair nos enganos em que o amor nos pode induzir. 

No fundo, quem pode afirmar saber algo sobre o amor?




quinta-feira, 28 de maio de 2020

Opinião: Terrarium

Dizem que é o melhor livro de ficção cientifica português. Provavelmente será, mas não tenho background para o conseguir afirmar.
Este livro é uma reedição, (revista e aumentada) do livro originalmente publicado em 1996, cuja edição já não é possível encontrar à venda.  
Tem a particularidade de ser escrito  sob a forma de contos (mosaicos) independentes entre si mas que no final todos fazem sentido. Quando li a primeira review que falava neste pormenor fiquei com um pouco de receio, confesso, mas na verdade tudo encaixa e tudo faz sentido, mesmo a personagem nova que aparece quase no final e que eu não estava a perceber para quê!

No futuro a Terra é o planeta para onde são enviadas centenas de diferentes espécies extraterrestres, a maioria por ter sido expulsa do seu sistema de origem.
Ao redor do planeta existe um anel artificial, composto de milhares de naves e outros detritos, naves essas que por vezes caem na Terra, com as consequências que daí advém.
Há uma língua universal (Trade) muita tecnologia avançada (com diferentes graus), exóticos (extraterrestres) com várias formas, uns semelhantes a insectos, outros a mamíferos e outros que utilizam avatares humanos para se apresentarem. Bombas deprimidas (a Triste Judite ficou na minha memória), naves, elevadores até ao anel, armas e outros objectos com Inteligência Artificiai e mesmo IA que são implantadas  nos humanos. Ratos em Londres que ganham um tipo de inteligência quase humana, fauna e flora extraterrestre, flora inteligente, um filofax com a forma de um furão e de nome João (quero um para mim 😉)
No final temos 3 alternativas, um mundo sem humanos, um mundo sem Potestades, um mundo sem IXYITIL. Li os três, claro. Gostei de todos mas tenho o meu preferido para terminar o livro.

Acredito que não tenha conseguido assimilar todas as nuances, devido a algumas referências ao longo do livro, personagens, revistas pulp, ou outros termos próprios deste tipo de livros e a minha grande ignorância no assunto. 
Mas gostei bastante e foi bom para mudar de tema de leitura. 

Podem adquriri o Terrarium aqui.



Autores: João Barreiros e Luís Filipe Silva

Nacionalidade: Portuguesa
Páginas: 559
Ano edição revista e aumentada: 2017
Ano primeira edição (não revista): 1996
Classificação: ⭐⭐⭐⭐

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Opinião: O quarto dos horrores, de Angela Carter

Em 2020 tinha decidido não participar em desafios de leitura. Mas estes vão surgindo e são interessantes e não conseguimos resistir e fogem da nossa zona de conforto e e e
Pronto, já perceberam a ideia.

Foi graças a um destes desafios, desta vez lançado pela Mafalda do canal A Outra Mafalda, que conheci esta autora e li este livro. Trata-se da #maratonafairytales e são 4 desafios:
1) Ler Conto Tradicional Português
2) Ler Conto Tradicional de outro País 
3) Ler um re-conto de uma história de fadas ou conto tradicional 
4) Ler um livro de Contos Tradicionais ou Contos de Fadas

Este livro de Angela Carter foi uma surpresa. Não estava com nenhuma expectativa, até porque não conhecia a autora e nem me lembro de alguma vez ter lido/visto uma opinião sobre o mesmo. 
Trata-se de um livro de contos, baseados em contos tradicionais, como sejam O Barba Azul, A Bela e o Monstro, A Branca de Neve, O Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, Vampiros, Lobisomens.
Mas estes contos são contados de uma forma peculiar, com finais de que não estamos à espera, cenas de sexo e mulheres poderosas.
Numa versão a Bela transforma-se também ela em algo animal, noutra a avó era o lobisomem, temos o lobisomem que era caçador e é seduzido pela Capuchinho vermelho, uma mãe salva a rapariga das garras de um homem louco... e o nosso Gato das Botas, que com a sua Tabby ajudam os donos a ficarem juntos. 
Não é uma escrita simples e, confesso, alguns contos deixaram-me duvidas sobre o seu significado. 
Acho mesmo que é daqueles livros que merece uma leitura conjunta para troca de impressões. 
Gostei e fiquei tentada a ler os restantes livros da autora que estão disponíveis na biblioteca. 


Nota: Não costumo ler fantasia mas ainda bem que sigo o canal da Mafalda e resolvi participar nesta maratona, foi muito bom sair fora da minha zona de conforto.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Querem um livro para se rirem? "Três homens num Bote"



Este livro foi uma feliz surpresa, dei umas boas gargalhadas em algumas partes, noutras apenas sorri e apreciei o fino humor inglês. 
"Tudo tem os seus inconvenientes, como dizia o outro, quando, tendo-lhe morrido a sogra, vieram apresentar-lhe a conta do enterro"
"No caso presente, voltando ao reclamo das pílulas para o fígado, eu tinha bem evidentes os sintomas hepáticos, dos quais o principal é uma imensa aversão ao trabalho, sob qualquer forma" 

E a descrição de um banho no mar mais engraçada que alguma vez li:
"Uma vez ou duas a virtude triunfou: levantei-me às seis horas, vesti-me sumariamente, peguei no fato de banho e na toalha e, um tanto contrariado, pus-me a caminho. Mas o banho não me deu o mínimo prazer. Parece que reservam especialmente para mim, quando vou tomar banho de manhã cedo, um ventinho do nordeste particularmente cortante, escolhem todas as pedrinhas aguadas, para porem ao de cima, afiam as rochas e escondem-nas sob uma leve camada de areia, para que eu não as veja e fazem recuar o mar a três quilómetros de distância. De modo que me vejo obrigado a agasalhar-me com os meus próprios braços e a correr e a tremer e a chapinhar numa água de quinze centímetros de altura. Quando chego ao mar, a água está gelada e desagradável. Uma onda enorme empurra-me e atira-me com toda a força contra um rochedo que puseram ali de propósito para me magoar. E antes que eu tenha tempo de gritar: Ai! ai! e de verificar os estragos, a onda recua e leva-me para o largo. Começo então a nadar freneticamente para terra, perguntando a mim mesmo se tornarei a ver a minha casa e os meus amigos, e sentindo remorsos de não ter sido mais afectuoso com a minha irmãzita, quando era garoto. Acabo de perder toda a esperança quando uma onda, ao retirar-se, me deixa estendido na areia, como se eu fosse uma estrela-do-mar e, quando me levanto, reparo que estive a nadar como um louco em sessenta centímetros de água.

Bom humor inglês a um livro de distância!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Opinião: A relíquia, de Eça de Queirós

Um rapazito, Teodorico, fica órfão e vai viver para casa de uma “titi”, D. Patrocinia, uma senhora austera, muito beata, sem filhos e para quem as coisas do amor são umas imundices (incluindo o ter filhos!).
O rapaz cresce e vai percebendo que tem de agradar à titi, isto se quiser aspirar a ser herdeiro da sua fortuna. Mas vai também aprendendo a ludibriar a titi e a fazê-la acreditar que é muito piedoso, casto e um fervente católico.
Um dia a titi envia-o em peregrinação à terra santa e pede-lhe uma relíquia especial. Claro que ele tenta encontrar algo que agrade à senhora e que, definitivamente, a convença a doar-lhe toda a sua fortuna.
Uma "pequena" troca leva a que o seu plano saía gorado e ele seja expulso de casa (e deserdado).


A escrita tem um toque de humor e ironia, percebendo-se uma critica ao ambiente de fanatismo religioso (e hipócrita?) vivido em Portugal na época.
No entanto, quando o Teodorico chega a Jerusalém a narrativa toma um percurso mais fantástico e houve partes que francamente me cansaram (principalmente porque começam as descrições de Eça, ao estilo da descrição do Ramalhete nos Maias – parte que passei à frente quando li essa obra).
Mas destaco um diálogo que ele tem com um vendedor, escorraçado do templo, e durante o qual tendemos a ficar contra Jesus (nesta parte achei que o Saramago tinha vindo inspirar-se no Eça para escrever “O Evangelho Segundo Jesus Cristo). Gostei também da história alternativa à ressurreição (a qual acredito tenha criado alguma celeuma na sociedade portuguesa do seu tempo).

Em resumo, gostei de ler este livro, recomendo a quem for fã de clássicos e tiver um à vontade com a leitura que permita ler de viés as partes menos boas ou compreensíveis da história. E claro, para quem for fã do estilo descritivo de Eça de Queirós. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Opinião: A bibliotecária de Auschwitz

Li este livro para o projeto da Dora Santos Marques, #HOL75.

Confesso que ao inicio estava a achar o livro fraquito, sentia que as personagens andavam muito “à vontade” no campo de concentração. Para mais, nunca tinha lido sobre o campo familiar, pelo que tudo me parecia demasiado ficcional.

Mas na verdade esse campo existiu e a bibliotecária também, bem como a maioria das personagens. O livro está, na minha opinião, escrito num crescendo, pelo que vamos ficando cada vez mais agarrados à leitura. Os horrores vão aumentando e nós vamos ficando mais angustiados por saber o que acontecerá a cada personagem.

Gostei bastante de algumas passagens do livro, onde o autor usou palavras que me fizeram comover:
De repente, parece ter voltado a ser noite.
- O que é isto? – pergunta uma menina, assustada.
- Não tenham medo – diz-lhes Miriam Edelstein. – São os nossos amigos do transporte de Setembro. Estão a voltar.
As crianças e professores juntam-se em silêncio. Muitos rezam em voz baixa. Dita faz concha com as mãos para recolher um pouco daquela chuva de almas e não consegue conter as lágrimas, que abrem sulcos brancos nas suas faces enegrecidas. Miriam Edelstein está abraçada ao filho, Ariah, e Dita junta-se a eles.
- Voltaram, Dita. Voltaram.
Nunca mais sairão de Auschwitz.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Opinião "Contai aos vossos filhos... Um livro sobre o Holocausto na Europa, 1933-1945"

Como disse no post anterior, escolhi este livro apenas por estar disponível na sala de leitura. E, confesso, quando o fui buscar estive quase para lá o deixar. Ainda bem que não o fiz.

Não sendo grande especialista em livros sobre a segunda guerra mundial ou o holocausto, arrisco-me a dizer que este livro é bastante completo, na medida em que faz um enquadramento sobre os antecedentes do holocausto, das ideologias nazis, o antisemistismo, biologia racial, contando o percurso até à "solução final".

Percebemos como a propaganda "anti judeus" foi sendo lentamente introduzida na sociedade alemã. Por exemplo, em 1930 foi criado um jogo de tabuleiro chamado “Juden raus" onde o está escrito no tabuleiro "“If you manage to send off 6 Jews, you’ve won a clear victory"


Para além dos Judeus, também os ciganos (este grupo tem a sua própria palavra para o holocausto "Porrajmos"), homossexuais, deficientes físicos e mentais (os primeiros a serem "eliminados", isto apesar de serem alemães), pessoas consideradas "anti sociais" (enfim, a lista é imensa) foram alvo perseguições.
Cada um com o seu tipo de identificação:

▼ Triângulo amareloJudeus: dois triângulos sobrepostos, para formar a Estrela de Davi, com a palavra "Jude" (judeu em alemão) inscrita; mischlings i.e., aqueles que eram considerados apenas parcialmente judeus, muitas vezes usavam apenas um triângulo amarelo.
▼ Triângulo vermelhoDissidentes políticos: incluindo comunistas, sociais-democratas, liberais, anarquistas e maçons.
▼ Triângulo verdeCriminoso comum: Criminosos de ascendência ariana recebiam frequentemente privilégios especiais nos campos e poder sobre outros prisioneiros.
▼ Triângulo púrpura (roxo)Basicamente aplicava-se a todos os objectores de consciência por motivos religiosos, por exemplo, as Testemunhas de Jeová, que negavam-se a participar dos empenhos militares da Alemanha nazista e a renegar sua fé assinando um termo declarando que serviriam a Adolf Hitler.
▼Triângulo azulImigrantes: Foram usados, por exemplo, pelos prisioneiros Espanhóis que se exilaram em França a seguir à derrota na revolução Espanhola, e que mais tarde foram deportados para a Alemanha Nazista considerados como apátridas.
▼ Triângulo castanhoCiganos roma e sinti.
▼ Triângulo negroLésbicas e mulheres "anti-sociais". (alcoólatras, grevistas, feministas, deficientes e mesmo anarquistas). Os Arianos casados com Judeus recebiam um triângulo negro sobre um amarelo.
▼Triângulo rosaHomens homossexuais




O livro é escrito num crescendo de horrores, à medida que a "máquina nazi" vai aperfeiçoando os seus métodos. Mas é, sem duvida, um livro que vale a pena ler. No entanto, é também um livro difícil de digerir. ⭐⭐⭐⭐⭐

一一一一一一一一一一一
Este livro foi escrito por iniciativa do governo suíço, que em 1997 iniciou uma campanha de informação sobre o holocausto “Living History", sendo esta publicação parte desse movimento. A versão em inglês pode ser descarregada no site https://www.levandehistoria.se/
A versão portuguesa integra o papel de Portugal neste cenário de guerra, pelo que existem algumas diferenças para a versão original.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Opinião: Dalai-Lama: Autobiografia


A próxima reunião do clube de leitura de que faço parte tem como tema Biografia. Confesso que este não é um género que me puxe muito para ler, por norma não tenho qualquer curiosidade para saber o como foi a vida de pessoas "famosas".
Mas reconheço que estava com uma visão muito limitada das biografias, já que estas podem ser sobre figuras muito interessantes, não propriamente muito famosas ou "da moda". Nada contra com quem leia e goste, simplesmente eu não sinto essa vontade ou curiosidade.
Foi então que me lembrei do Dalai Lama, uma personagem que conhecia pouco: sabia que é o líder espiritual do Tibete, país (ou região) que foi anexada pela China, que vive no exílio e ganhou um Nobel da paz.
Nesta autobiografia fiquei a conhecer melhor o drama que o povo tibetano sofreu (e ainda sofrerá? Tenho de pesquisar, dado que este livro foi publicado há 20 anos), como é que aquele rapazinho de 2 ou 3 anos foi reconhecido como reencarnação do Dalai Lama, como foi a sua educação, a sua ida para o exílio, os usos e costumes deste povo maioritariamente budista e o grande apoio que receberam da Índia, onde foram criadas aldeias para os refugiados e cujo governo os auxiliou bastante.
Não foi um livro fácil de ler, apesar de ter poucas páginas, a letra é muito pequena, a escrita é muito densa, com termos e nomes em tibetano e sânscrito. No entanto, o facto de praticar Yoga-Samkhya (onde são utilizadas algumas designações que surgem neste livro) e a leitura previa do livro Cisnes selvagens ajudou-me a perceber melhor algumas passagens e a formar uma imagem mais clara na minha mente.
Fiquei com vontade de ler outros livros escritos pelo Dalai Lama e outros sobre o budismo e sobre o Tibete.
Ler também é isto, aumentar os horizontes, viajarmos até outras realidades e percebermos melhor o mundo.



sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Opinião: Breviário das Más inclinações, de José Riço Direitinho

Antes de a enterrar de bruços, o sacristão atirou uma foice por cima do beirado da igreja. Era a sétima pessoa a morrer desde a chegada das febres, no inicio de Dezembro. De maneira que o sétimo morto tinha de descer à terra de bruços, dentro do caixão, para esconjurar a morte.




Um livro que achei delicioso, não tanto pela história em si mas pelos usos e costumes antigos que relata, as mesinhas e ervas que tudo curam, os mitos e superstições, a linguagem de um Portugal rural do tempo dos meus pais e avós.  E não esquecer a existência de lobos e javalis, algo que os meus pais também me contam da sua infância e que vi retratado neste livro.
A história é a do nascimento, vida e morte de José de Risso, filho de um pai que nem sabe que o concebeu, cuja mãe morre horas após o seu nascimento. Nasce com a marca de uma folha de carvalho nas costas (e a mãe ainda tem tempo para se aperceber que no seu avental de todos os dias tinha uma folha no bolso, que certamente causou essa marca no filho), no dia do seu baptizado o padre deixa cair a água benta no chão (prenuncio de má sorte) e logo em pequeno gosta de ver as mulheres nuas a tomar banho no rio (um devasso que desde pequeno mostra as suas más inclinações).
Ao logo da sua vida tem premonições, cura pessoas, mas também faz mal a outras tantas.
Ao ler este livro recordei histórias e vivências da minha infância, cujas férias eram passadas na "província", a desfolhada, a matança do porco, as superstições, as festas... o que acredito, tenha contribuído para gostar tanto deste livro.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Opinião: A Sibila, de Par Lagerkvist


"Não odeias o deus que te tratou dessa maneira, que te fez tudo isso? Não odeias esse ser tão absurdamente cruel?
A velha esperou um pouco antes de responder: parecia refletir. Depois, disse:
Não sei quem ele é. Como poderia, assim, odiá-lo? Ou Amá-lo? Em verdade, parece-me que não o odeio, e que não o amo.
Pensando bem, acho que tais palavras não têm sentido quando se trata dele. Não é como nós e não podemos compreendê-lo. É incompreensível, insondável. É deus.
"



Este livro  foi publicado no nosso país em 1959 e ao longo da leitura não pude deixar de pensar no porquê de Saramago a ter traduzido. Em certa medida, as inquietações religiosas que o autor levanta podem ser comparadas às que Saramago também aborda no Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Neste livro temos duas personagens - o homem que não deixou o filho de deus se encostar na sua casa, durante o calvário, e por isso foi amaldiçoado por ele -  e uma Pítia do santuário de Delfos, mulher que era possuída pelo espírito do deus e através da qual os sacerdotes do templo interpretavam a sua mensagem.



Gostei de ler este clássico (eu gosto de ler clássicos) mas é uma narrativa que pode não prender toda a gente, já que temos as duas personagens a contar a sua própria história, com destaque para a voz da Pítia. Mas levanta algumas questões interessantes, faz-nos pensar e reflectir.  

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Opinião: O Rapaz do Pijama às Riscas



Como já referi, este livro veio numa caixa do clube de Leytura, sendo indicado para a faixa de 11 a 13 anos.
Por ser um tema "pesado" muitas pessoas me disseram não acharem adequado para uma criança de 11 anos (idade da B.)dispus-me a lê-lo já.
A história é contada pelos olhos de Bruno, um rapazito alemão de 9 anos, que se muda com a família para uma casa junto a um campo de concentração em "Acho-vil". Ao longo da história percebemos que o pai é um oficial de grande patente, já que chega a receber "Fúria" (Hitler) na sua casa.
Da janela do seu quarto ele vê um conjunto de casas onde moram muitas pessoas vestidas com "pijamas às riscas". Naturalmente curioso, ele começa a explorar as imediações e encontra um rapaz, Shmuel, sentado do outro lado da vedação, com quem trava uma amizade.
O livro é escrito numa linguagem muito acessível (achei mesmo um pouco simplista demais) e nada "gráfico". Ou seja, não são descritos taxativamente os horrores ou mortes de pessoas, mas nós adultos subentendemos muito bem o que se passa.
Em relação a dá-lo a ler à minha filha acho que sim, poderá lê-lo, pois como os horrores surgem nas entrelinhas julgo que não irá ficar demasiado impressionada. No entanto, tenciono que esta seja uma leitura conjunta, mãe e filha, para que possamos falar sobre o que ela está a ler.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Opinião: Os Despojados, de URSULA K. LE GUIN

Sinopse

A jornada de um homem em busca da reconciliação de dois mundos
Em Anarres, um planeta conhecido pelas extensas áreas desérticas e habitado por uma comunidade proletária, vive Shevek, um físico brilhante que acaba de fazer uma descoberta científica que vai revolucionar a civilização interplanetária. No entanto, Shevek cedo se apercebe do ódio e desconfiança que isolam o seu povo do resto do universo, em especial, do planeta gémeo, Urras.
Em Urras, um planeta de recursos abundantes, impera um sistema capitalista que atrai Shevek, decidido a encontrar mais liberdade e tolerância. Mas a sua inocência começa a desaparecer perante a realidade amarga de estar a ser usado como peão num jogo político letal.
Que esperança e idealismo restam a Shevek, aprisionado entre dois mundos incapazes de ultrapassar as diferenças? E ao desafiar ambos os regimes políticos, conseguirá ele abrir caminho para os ventos da mudança?


Este não foi um livro fácil de formar opinião, tanto assim que ao longo da leitura pensava em simplesmente não o classificar.
Teve passagens em que o achei genial, muito devido à reflexão sociológica que me levava a fazer. Mas teve também partes que achei bastante aborrecidas, principalmente quando era abordada a teoria em que o nosso protagonista estava a trabalhar.
Anarres e Urras são como a nossa Lua e Terra, sendo que os habitantes de Anarres foram colonos provenientes de Urras, pessoas que se rebelaram contra o sistema vigente e quiseram formar uma nova sociedade.
É aqui que vive Shevek, um físico que se sente limitado pelas fronteiras (e limitações) do seu planeta, pelo que viaja até Urras para que possa desenvolver melhor a sua teoria.
Urras é um planeta muito diferente de Anarres, baseado no capitalismo e com uma sociedade muito patriacal (machista, vá). Em Anarres não existe o conceito de posse, mulheres e homens são encarados como iguais.
Com o desenrolar da leitura fui gostando cada vez mais deste livro e fiquei mesmo com vontade de conhecer os restantes da autora, nomeadamente os referentes ao Ciclo de Hainish, do qual este pode ser considerado uma prequela.
Os Despojados
Inclui este livro no #bookbingoleiturasaosol2019, "último livro que compraste".

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Opinião: A noite Sagrada", de Tahar Bem Jelloun


"Um homem não tem nada na origem, é verdade, e nada devia ter no fim. Ora inculcou-se ao homem a necessidade de possuir: uma casa, pais, filhos, pedras, títulos de propriedade, dinheiro, oiro, pessoas... Eu estou a aprender a não possuir."


Escolhi este livro para a #MLVoltaaoMundo15, categoria países árabes - Marrocos, um pouco "às escuras" já que a biblioteca local não tem muitas opções. Entrou também para a categoria "um livro de um autor que nunca leste" do #bookbingoleiturasaosol2019.


Conta a história de uma mulher de cerca de 20 anos, que foi criada e viveu como um homem até à noite em que o pai morre e ela se liberta dessa mentira.
Ao longo do livro somos confrontados com alguma fantasia que ocorre na cabeça dela, tal como quando é "raptada" no funeral do pai por um homem misterioso num cavalo, que a leva para uma comunidade só de crianças, onde se liberta e se descobre enquanto mulher. Outras cenas são algo estranhas, como a a "violação" na floresta (e aqui violação está propositadamente entre aspas), que mais tarde vimos a perceber ter sido encarada por ela como necessária para a sua descoberta. Já quase no final do livro surge a cena que me custou mais a ler, devido à violência retratada.
O percurso dela leva-a a conhecer personagens suis generis (tal como ela própria), terminando a meu ver de forma algo estranha.


Gostei do livro mas não é uma leitura para todo o tipo de leitores, já que é intimista, reflexiva, com fantasia e sexo à mistura. Uma miscelânea que acaba por resultar bem!


segunda-feira, 1 de julho de 2019

O "pior" livro que já li (por vontade própria)

Felizmente, enquanto leitora, não costumo ler livros que considere particularmente maus.
Claro que alguns são melhores do que outros e tenho consciência que não gostei de alguns livros por os ler na altura errada.
A Sibila poderá ser um desses, foi a leitura obrigatória no 12º ano do secundário e achei muito difícil de ler. Note-se que com a mesma idade já lia alguns clássicos da literatura portuguesa que muitos detestavam e eu adorava.
Mas aquele livro que me ficou na memória pelos piores motivos, de tão sem nexo que é, foi "Os piores contos dos irmãos Grim"!

Um livro que os autores queriam que fosse humorista mas que não me causou nenhum sorriso... talvez se conhecesse a história real destes irmãos Grim ou um pouco da história local o pudesse ter apreciado de outra forma. Li numa entrevista que comparavam este livro a uma obra de Tarantino, não sei, talvez lhe pudesse dar outra oportunidade... ou talvez o melhor seja não perder mais o meu tempo com uma leitura que, até à data, considero que foi o pior livro que já li por vontade própria!