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sexta-feira, 29 de março de 2019

Opinião: Persépolis


Esta foi a minha estreia em "graphic novels" para adultos (que é como quem diz, banda desenhada) e não desiludiu.


É um relato autobiográfico que retrata a vida de Marjane Satrapi, a sua infância no Irão, a passagem pela vida em Viena e o regresso ao Irão.
Neste livro somos confrontados com a revolução Iraniana, a guerra, o aumento da repressão sobre as populações (não podem beber, fazer festas, jogar, ... ).
Com um sentido de humor caustico, algumas passagens fazem-nos rir, outras levam-nos às lágrimas mas todo o livro nos faz reflectir sobre a realidade iraniana e os nossos preconceitos por esta zona do globo.
Para além da vida no Irão, relata também as dificuldades do crescimento de uma jovem, dividida entre a modernidade e a tradição, a sua revolta e o voltar às origens.
Sem duvida que recomendo.
☆☆☆☆☆




Persépolis em grego clássico: Περσέπολις; transl.: Persépolis , lit. "A cidade persa"

quarta-feira, 27 de março de 2019

Opinião: Dezanove minutos, de Jodi Picoult

Este livro foi a minha estreia na leitura de Jodi Picoult, uma autora que é muito falada no booktube nacional, com boas opiniões.

A história em si é bastante interessante: um rapaz Peter comete um atentado numa escola, matando 10 pessoas e ferindo muitas outras.
Ao longo do livro vamos avançando e recuando no tempo, conhecendo o passado dele e da sua ex melhor amiga, Josie.
Percebemos que Peter foi vitima de bullying desde que começou a frequentar a escola, com os atos que sofria a virem a ser agravados ao longo dos anos. Perdeu a amiga Josie, que acabou por se mudar para o lado dos "populares", passando a namorar com um dos rapazes mais populares da escola (e que é altamente manipulador, cometendo inclusive alguns atos de violência com Josie, que o perdoa porque "ela é que se portou mal". Esta relação daria para outro livro sobre violência no namoro). 
Para além do bullying, este livro retrata também os dramas da adolescência - a solidão, o querer fazer parte do grupo, o agir contra a nossa consciência apenas para ser aceite, a gravidez na adolescência - mas também o choque dos pais que descobrem um dia que o seu filho é um assassino, a dificuldade de gerir a vida profissional e pessoal quando ambas podem entrar em conflito... são muitos temas fortes num mesmo livro.
Faz-nos também reflectir que para cada ato há sempre uma justificação, mesmo que nada justifique um atentado numa escola: ao sabermos tudo o que Peter passou, as injustiças, humilhações (mesmo que algumas situações fossem talvez exacerbadas na sua mente) sem apoio dos adultos, conseguimos compreender o monstro em que se tornou. Possivelmente Peter teria beneficiado de apoio psicológico para ultrapassar os inúmeros traumas que sofreu ao longo da infância, mas essa necessidade nunca foi identificada por nenhum dos adultos que o acompanharam.

Apesar de não me ter enchido as medidas (expectativas muito altas, suponho) é um livro muito bom, que merece ser lido.
☆☆☆☆

terça-feira, 12 de março de 2019

Opinião: A menina que sorria contas, de Clemantine Wamariya

“É estranho como se começa por ser uma pessoa longe de casa e se passa a ser uma pessoa sem casa. O lugar que, supostamente, nos devia receber expulsa-nos. Nenhum outro lugar nos acolhe. É-se indesejado, por toda a gente. É-se um refugiado.”


Mais um livro de não-ficção e mais um tema "pesado".
Clemantine era uma criança de 6 anos quando teve de fugir de casa com a irmã, de 16, por motivos que na altura não compreendeu.

Foi quando os pais começaram a falar baixo, a ficar mais por casa, os vizinhos começaram a desaparecer.... fuga causada pelo inicio do genocídio do Ruanda, uma história sangrenta que parece quase impossível: pessoas que matavam desconhecidos, vizinhos, amigos e até familiares, simplesmente por terem uma etnia diferente!

No livro temos uma Clemantine atual (cerca de 30 anos) que conta a fuga com a irmã Claire, como se sentia assustada, abandonada, carente de afeto mas impossibilitada de também ela dar esse afeto, devido às constantes fugas, ao constante medo.
Ela e a irmã andaram a circular entre campos de refugiados, entre diversos países (mais de 4000 km). Claire casou teve filhos, mas percebemos que Claire é que é a guerreira, é quem toma conta da família, através do seu empreendedorismo. (O marido é um parvalhão que lhe bate e a trata mal). E é graças à proactividade de Claire que elas conseguem ir para os Estados Unidos da América, onde Clemantine é acolhida por uma família e consegue assim estudar e tirar um curso superior.

O livro alterna entre recordações do passado, da fuga, da vivência nos campos de refugiados e outros locais igualmente tenebrosos, da fome, dos piolhos, de outros parasitas que as atacavam, ... e recordações do inicio da vida na América, do seu percurso escolar, da revolta, o fingir que tem tudo controlado quando afinal está completamente destruída por dentro.

Logo no inicio do livro temos o reencontro das duas irmãs com a família, num programa da Oprah. Apesar da emoção, percebemos que são todos estranhos uns para os outros, todos têm o seu trauma interior que, percebemos mais tarde, não conseguem partilhar uns com os outros. 

Outros pontos de destaque do livro: 
- o tratamento dado às mulheres na sociedade dela (cuidado para não seres violada, pois ficas "estragada"; aguenta o teu marido que te bate, quando os filhos crescerem ele deixará de o fazer, pois quer agradar aos filhos; os "miúdos" de galinha que elas nunca tinham provado, pois eram reservadas aos homens, tal como a comida, que era prioritariamente dada a eles, ....). 
- as leituras que ela faz de temas ligados ao holocausto, fiquei com mais algumas sugestões de títulos/autores a ler.
- a descrição de alguns hábitos da sociedade Ruandesa


Um livro que merece a sua leitura.
☆☆☆☆☆

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião: Escrava, de Mende Nazer

Este livro conta a história real, que infelizmente ainda acontece no Sudão: crianças e mulheres que são retiradas das suas aldeias (raptadas) para serem vendidas como escravas.
Foi o que aconteceu a Mende, que pertencia à tribo Nuba, no Sudão do Sul. Retirada à força da sua família, num assalto violento à sua aldeia, foi raptada e vendida como escrava para uma família árabe
do Sudão. Uma prática que percebemos ser comum nesse país, onde ocorre uma grande descriminação sobre estas tribos e minorias étnicas.
Com cerca de 12 anos, Mende deixa de ter infância, passando a trabalhar dia e noite na casa dos seus "donos", que apenas lhe "oferecem" dormida num barracão sem quaisquer condições, restos das refeições e muitos maus tratos físicos e verbais.

No seu relato, percebemos que a vida de escravatura vai a pouco e pouco destruindo o seu ser, para além de deixar de ter infância é como se deixasse de ter identidade própria. Ela refugia-se nas memórias felizes da sua infância, numa tentativa de manter a sua sanidade mental.
Só quando é enviada para Londres (passada como escrava para a irmã da anterior "dona") é que consegue escapar.

É realmente um retrato perturbador e é também perturbador pensar que nos dias de hoje esta é uma realidade de muitas crianças, cuja infância lhes é retirada.
Na primeira parte do livro temos uma descrição da infância de Mende onde surge o relato da sua circuncisão (impressionante), mas também vemos que teve uma infância feliz, cheia de sonhos como qualquer criança. A segunda parte é o relato da vida de escravatura, onde acredito que nem metade do que sofreu seja relatado.

Triste pensar que esta é uma realidade que ainda existe, milhares de crianças (e mulheres) que são forçadas à escravatura, de forma quase aberta nessa sociedade. Sem direitos, sem identidade.



☆☆☆☆☆

quarta-feira, 4 de abril de 2018

#marçofeminino

Para este desafio consegui ler 5 livros:

· As Serviçais, de Kathryn Stockett
· Cisnes Selvagens, de Jung Chang
· Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley
· O Homem de Giz, de C. J. Tudor
· Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta

Dos quais o último terminei já no inicio de Abril.

3 destes livros retratam a vida de mulheres:
As Serviçais: o que é ser negra, criada, senhora branca, numa sociedade racista e machista. Retrata a forma como as criadas negras eram tratadas mas também temos algumas histórias secundárias, como a das senhoras brancas que vivem das aparências, quase subjugadas ao que a “líder” impõe, a rapariga que quer ser escritora e não viver unicamente para agradar a um potencial marido, a mulher que quer agradar ao seu marido e ser aquilo que acha “o ideal de uma dona de casa” mas sem conseguir (e na verdade, sem que o marido se importe). Que sofre por não conseguir ter um filho mas sofre algum desprezo pelo médico.

Cisnes Selvagens: para além de contar a história da China, este é um livro sobre mulheres, que acaba por ser feminista sem o pretender ser. As histórias sobre o que era ser mulher no tempo das concubinas impressionou-me. A sociedade machista, o desprezo que as próprias mulheres votam a outras mulheres...

Novas Cartas Portuguesas: este livro não ficou nos meus favoritos, no entanto tem textos muito fortes, sobre a sociedade machista dos anos 70 (e anteriores e posteriores). A mulher vitima de abusos, a mulher que deve servir o seu marido, a mulher que trabalha em empregos que os homens não querem, ganhando menos do que estes, a mulher subjugada à figura patriacal pai-marido-irmão, a mulher que não deve ter prazer, que não pode ser dona do seu corpo, que é condenada por fazer um aborto (sem que se procurem os pais dessas crianças por nascer).





quarta-feira, 28 de março de 2018

Novas Cartas Portuguesas

Atualmente tenho dois livros começados, sendo um deles o famoso livro das "Três Marias" ( Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta): Novas Cartas Portuguesas.



Depois de tantas criticas positivas decidi incluir este livro na #ML122dias e no #marçofeminino, no entanto ainda não sei bem o que pensar do livro.
Quando comecei a leitura senti (com alguma vergonha, confesso) que não percebia nada, era como se aquilo que estava a ler não tivesse sentido nenhum, a construção gráfica de certas frases não me faziam sentido (cheguei a pensar "haverá algo de errado com esta edição que estou a ler"?).


Resolvi ler os textos e a respectiva nota explicativa ao mesmo tempo (primeiro leio o texto, depois a nota explicativa, que surge no final desta minha edição). Voltei atrás ao prefácio e ao pré prefácio, voltei aos textos, voltei muitas vezes atrás, para reler alguns dos textos.

Considero certos textos muito bons, onde dá perfeitamente para perceber a intenção das autoras: é um livro muito feminista, onde abordam a condição das mulheres ao longo do tempo, a escravidão do nosso corpo ao domínio masculino, as mulheres que não podiam ter vontade própria, não podiam ter prazer carnal, não deveriam gostar de sexo... as mulheres encaradas como putas (pobres homens que são seduzidos pelas próprias filhas...).
No entanto, certos textos parece estarem ali desgarrados, sem sentido.

Não desisto do livro porque tem passagens mesmo muito boas (li um pouco ontem à noite e os textos foram excelentes) e interessa-me pelo seu contexto histórico. No entanto, estou longe de dizer que é uma obra prima, o livro da minha vida.... 

É um livro para ler com calma e no momento certo. Talvez daqui a uns anos volte a rele-lo. 

Para saber mais: http://www.novascartasnovas.com/

☆☆☆
(texto editado a 4 de Abril, após terminus da leitura)

segunda-feira, 26 de março de 2018

Opiniões: Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley

Mais um livro para a #ML122dias e o #marçofeminino.

(contem spoilers)
O Frankenstein foi um livro sugerido no "Clube dos Clássicos Vivos" e que me surpreendeu bastante.
Para começar, o Frankenstein não é o monstro que todos (ou quase todos) julgamos que é. Mas no final, talvez cheguemos à conclusão que sim, é um tipo de monstro...
Frankenstein é o criador do "monstro", que lhe dá vida para logo depois o rejeitar. E este acaba por "crescer" sozinho, quase como se fosse um bebé a apreender as sensações de fome, frio, calor e sede, para pouco depois descobrir que é rejeitado pela sociedade apenas devido ao seu aspecto. Ninguém lhe dá verdadeiramente uma hipótese, talvez o velho cego, porque não o vê, pudesse ser uma companhia para ele, mas também essa hipótese lhe é negada pela sua família que o consegue ver.
No fundo, é uma história triste, de alguém que é rejeitado pela sociedade devido às suas diferenças (o que não deixa de ser um  tema actual) e cuja rejeição o faz explodir de raiva, cometendo alguns crimes só para castigar quem o criou.

 ☆☆☆☆

quinta-feira, 15 de março de 2018

Opiniões: As Serviçais, de Kathryn Stockett

Mais um livro lido para a #ml122dias e a #marçofeminino

Li ao mesmo tempo que Os Cisnes Selvagens, mas terminei este uns dias antes.

Passa-se no Mississípi, na década de 60, numa sociedade ainda muito racista e segregadora e é contada a três vozes: uma rapariga branca, com aspirações a ser escritora e 2 empregadas negras. Juntas escrevem um livro (com o depoimento de outras empregadas) sobre a sua visão do que é ser uma empregada negra em casa de senhores brancos.

O livro retrata as relações pessoais entre as empregadas, os bebés/crianças de que tomam conta e as senhoras para quem trabalham, com algumas referências a episódios de violência sobre negros. Existe ainda a história de um grupo de mulheres brancas, as “patroas” e a sua posição social naquela pequena cidade.

É uma leitura fluída, lê-se muito bem, daí ter intervalado com “Os Cisnes Selvagens”, que era uma leitura mais demorada e na qual tinha de ter mais atenção.


Gostei bastante do livro, no final gostaria de ter tido mais uns capítulos para ler e saber o que aconteceu a algumas personagens, tais como a Hilly (uma mulher algo detestável) e a Célia (uma pateta de quem tive algumas vezes pena). E claro as personagens principais, Skeeter Aibileen  e Minny.

☆☆☆☆

terça-feira, 13 de março de 2018

Opiniões: Cisnes Selvagens, de Jun Chang

Li este livro para a #ML122dias e a #marçofeminino, foi uma escolha ao acaso mas uma boa escolha.

Esta é uma história verídica sobre três gerações de mulheres, avó, mãe e filha, nascidas sobre o regime de Kuomintang, atravessando as convulsões da guerra civil chinesa e mais tarde o regime de Mao Tse-tung

Li uma review que dizia que este é um livro cheio de desgraças folha após folha, o que é uma boa descrição.
A avó nascida numa época que as mulheres pouco valiam (numa parte do livro é dito que a sua própria mãe “rezava” para que reencarnasse como um animal e não como mulher), as concubinas, o opio...
Depois o partido comunista sobe ao poder e é impressionante como este comandava a vida pessoal dos cidadãos, como as ideias de Mao mudavam ao sabor de sabe-se lá o quê e como foram cometidas tantas injustiças.

Era mal visto que as pessoas tivessem afeto pela família e que esse afeto se sobrepusesse aos interesses do partido, tudo podia de alguma forma “ofender o partido”. Pessoas que foram torturadas ou assassinadas por suspeitas mínimas (ou por vezes puras vinganças pessoais).

A Campanha Antidireitista, onde havia metas para serem encontrados “direitistas” (que poderiam vir a sofrer tortura, trabalhos forçados ou mesmo ser condenados à morte), O Grande Salto em Frente (inflacionamento irreal da produção alimentar, incentivo à produção de aço e posterior abandono da produção agrícola, o que resultou um grande período de fome), a Revolução Cultural (com a perseguição aos professores, destruição do sistema de ensino, de livros, de marcos culturais).

A falta de assistência médica de qualidade, a baixa instrução do povo (em especial dos camponeses), mais tarde, quando se mostrou a necessidade de qualificar alguns cidadãos, era o partido a decidir quem entrava na faculdade e para que curso (Mao não gostava de exames e os cidadãos não podiam ter gostos próprios - tudo tinha de ser feito em prol do interesse superior do partido), se a pessoa pode ir para as cidade ou fica no campo, os casais que estão geograficamente separados e apenas se podem ver durante 12 dias ao ano.

E a devoção a Mao, quase endeusado.

Uma devoção causada pela eliminação da cultura, nas escolas apenas estudavam o Livro Vermelho de Mao e o Diário do Povo (jornal oficial do partido comunista chinês), que logicamente enalteciam as virtudes do ditador e as suas ideias.

Confesso que desconhecia totalmente a história da China, fiquei muito impressionada com o que li. Certas partes fizeram-me recordar os livros sobre o Holocausto e a vida nos campos de concentração (a fome, os trabalhos forçados a troco de quase nada,…).

Não é um livro fácil de ler, quer pelo tema quer pela escrita, mas é um livro que deveria ser lido por mais pessoas.






☆☆☆☆

quinta-feira, 1 de março de 2018

Livros para Março - #marçofeminino

Descobri através do Diário de Leituras o desafio #marçofeminino. Este desafio consiste em ler apenas mulheres durante todo o mêsAdoro desafios literários (sinto que leio mais e de forma mais diversificada) pelo que irei participar, com as leituras que já tenho em andamento (estou a ler 3 livros, no entanto 1 é um autor masculino, que obviamente não conta) e pretendo começar pelo menos mais um. Estes livros fazem parte da minha TBR para o "ML122dias:

  • As Serviçais, de Kathryn Stockett: desafio 5 – Dia Internacional da Vida Selvagem
  • Cisnes Selvagens, de Jung Chang: desafio 3 - Ano Novo Chinês
  • Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley: desafio 14 - dia das Mentiras