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terça-feira, 12 de março de 2019

Opinião: A menina que sorria contas, de Clemantine Wamariya

“É estranho como se começa por ser uma pessoa longe de casa e se passa a ser uma pessoa sem casa. O lugar que, supostamente, nos devia receber expulsa-nos. Nenhum outro lugar nos acolhe. É-se indesejado, por toda a gente. É-se um refugiado.”


Mais um livro de não-ficção e mais um tema "pesado".
Clemantine era uma criança de 6 anos quando teve de fugir de casa com a irmã, de 16, por motivos que na altura não compreendeu.

Foi quando os pais começaram a falar baixo, a ficar mais por casa, os vizinhos começaram a desaparecer.... fuga causada pelo inicio do genocídio do Ruanda, uma história sangrenta que parece quase impossível: pessoas que matavam desconhecidos, vizinhos, amigos e até familiares, simplesmente por terem uma etnia diferente!

No livro temos uma Clemantine atual (cerca de 30 anos) que conta a fuga com a irmã Claire, como se sentia assustada, abandonada, carente de afeto mas impossibilitada de também ela dar esse afeto, devido às constantes fugas, ao constante medo.
Ela e a irmã andaram a circular entre campos de refugiados, entre diversos países (mais de 4000 km). Claire casou teve filhos, mas percebemos que Claire é que é a guerreira, é quem toma conta da família, através do seu empreendedorismo. (O marido é um parvalhão que lhe bate e a trata mal). E é graças à proactividade de Claire que elas conseguem ir para os Estados Unidos da América, onde Clemantine é acolhida por uma família e consegue assim estudar e tirar um curso superior.

O livro alterna entre recordações do passado, da fuga, da vivência nos campos de refugiados e outros locais igualmente tenebrosos, da fome, dos piolhos, de outros parasitas que as atacavam, ... e recordações do inicio da vida na América, do seu percurso escolar, da revolta, o fingir que tem tudo controlado quando afinal está completamente destruída por dentro.

Logo no inicio do livro temos o reencontro das duas irmãs com a família, num programa da Oprah. Apesar da emoção, percebemos que são todos estranhos uns para os outros, todos têm o seu trauma interior que, percebemos mais tarde, não conseguem partilhar uns com os outros. 

Outros pontos de destaque do livro: 
- o tratamento dado às mulheres na sociedade dela (cuidado para não seres violada, pois ficas "estragada"; aguenta o teu marido que te bate, quando os filhos crescerem ele deixará de o fazer, pois quer agradar aos filhos; os "miúdos" de galinha que elas nunca tinham provado, pois eram reservadas aos homens, tal como a comida, que era prioritariamente dada a eles, ....). 
- as leituras que ela faz de temas ligados ao holocausto, fiquei com mais algumas sugestões de títulos/autores a ler.
- a descrição de alguns hábitos da sociedade Ruandesa


Um livro que merece a sua leitura.
☆☆☆☆☆

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião: Escrava, de Mende Nazer

Este livro conta a história real, que infelizmente ainda acontece no Sudão: crianças e mulheres que são retiradas das suas aldeias (raptadas) para serem vendidas como escravas.
Foi o que aconteceu a Mende, que pertencia à tribo Nuba, no Sudão do Sul. Retirada à força da sua família, num assalto violento à sua aldeia, foi raptada e vendida como escrava para uma família árabe
do Sudão. Uma prática que percebemos ser comum nesse país, onde ocorre uma grande descriminação sobre estas tribos e minorias étnicas.
Com cerca de 12 anos, Mende deixa de ter infância, passando a trabalhar dia e noite na casa dos seus "donos", que apenas lhe "oferecem" dormida num barracão sem quaisquer condições, restos das refeições e muitos maus tratos físicos e verbais.

No seu relato, percebemos que a vida de escravatura vai a pouco e pouco destruindo o seu ser, para além de deixar de ter infância é como se deixasse de ter identidade própria. Ela refugia-se nas memórias felizes da sua infância, numa tentativa de manter a sua sanidade mental.
Só quando é enviada para Londres (passada como escrava para a irmã da anterior "dona") é que consegue escapar.

É realmente um retrato perturbador e é também perturbador pensar que nos dias de hoje esta é uma realidade de muitas crianças, cuja infância lhes é retirada.
Na primeira parte do livro temos uma descrição da infância de Mende onde surge o relato da sua circuncisão (impressionante), mas também vemos que teve uma infância feliz, cheia de sonhos como qualquer criança. A segunda parte é o relato da vida de escravatura, onde acredito que nem metade do que sofreu seja relatado.

Triste pensar que esta é uma realidade que ainda existe, milhares de crianças (e mulheres) que são forçadas à escravatura, de forma quase aberta nessa sociedade. Sem direitos, sem identidade.



☆☆☆☆☆

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Novos "projectos" para 2019 - "Leiturtugas" e "So happy with Non Fiction"

Para além dos desafios no Goodreads, "tropecei" em dois outros desafios que me pareceram bem interessantes:

Leiturtugas: organizado pelo autor do blog A Lâmpada Mágica consiste num desafio em ler (e comentar) Ficção Cientifica Portuguesa. Em principio participo na versão mais curta, Leiturtuguinhas.

So happy with Non Fiction: organizado pela autora do blog (e canal youtube) So happ ywith less, onde o objectivo é ler mais livros de não ficção. Após uma  votação renhida entre feminismo e Biografias, foi decidido que em Março leríamos um livro do sub-género "Biografias".

Estes dois desafios vêm mesmo a calhar, por um lado leio pouca Ficção Cientifica, por outro tendo a esquecer um pouco a não-ficção.