Mostrar mensagens com a etiqueta Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saramago. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Opinião: O Ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago




José Saramago é um dos meus autores favoritos, já li a maior parte dos romances dele:

e ainda um livro de contos:

O Ano da Morte de Ricardo Reis conta a história deste heterónimo de Fernando Pessoa, que regressa a Portugal quando recebe a noticia do falecimento do grande poeta.
Ao longo do livro são-nos dados vislumbres do que era a sociedade portuguesa nessa época (1935/1936), a politica, as cheias, o culto de Fátima, os festejos do carnaval e ano novo, alguma visão do papel feminino... também recebemos notícias da conjuntura internacional, Espanha, Itália, Alemanha...
No livro encontramos citações à obra de Fernando Pessoa (e seus heterónimos), a Camões...

Como é recorrente nos livros de Saramago, neste também temos uma componente de "ficção cientifica", Pessoa encontra-se com Ricardo e explica que, depois da morte, terá 9 meses para andar na terra, podendo ser ou não visto pelas outras pessoas, pelo que estas duas personagens (mortas ou vivas?) conversam diversas vezes.
Há duas personagens femininas, Lídia (que é também o nome de uma "musa" de Ricardo Reis) e Marcenda, Lídia uma mulher forte, criada na pensão onde Ricardo fica alojado (mas age de uma forma demasiado submissa para o meu gosto feminista, chega a irritar-me algumas vezes...), Marcenda uma mulher jovem, com o braço esquerdo inerte...

A escrita é a habitual de Saramago, parágrafos longos, sem introdução aos diálogos. Mas é uma escrita apaixonante, conseguimos perfeitamente imaginar os cenários descritos. ☆☆☆☆



segunda-feira, 5 de março de 2018

Opiniões: Objecto Quase, de José Saramago



Sou fã de José Saramago, já li diversos romances, pelo que para o desafio 15 da #ML122dias resolvi escolher um livro publicado por este autor. Consultando a Wikipédia e o site da Biblioteca Municipal, optei por este livro de contos. Foi também a minha primeira experiência (que me recorde) com esta tipologia de escrita.





Este livro contém 6 contos:
  • A Cadeira: primeiro conto, onde é fácil perceber uma clara alusão à queda de Salazar. Confesso que foi difícil entrar nesta leitura, às tantas só pensava “mas quantas páginas são necessárias para descrever uma simples queda de uma cadeira?”. Mas depressa percebi o meu erro: estava a ler aos poucos, um bocadinho à hora de almoço, mais um bocadinho enquanto esperava, mais um bocadinho daqui a pouco… No entanto é um bom conto, Saramago usa diversas alegorias para contar a queda da cadeira, o Anobium que se torna no Buck Jones, a alusão ao fim da ditadura, à forma como descreve o ditador que se vai sentar na cadeira e à opinião do autor acerca do mesmo:
Deixemos porém este pó que não é sequer enxofre, e que bem ajudaria o cenário se o fosse, ardendo com aquela chama azulada e soltando aquele seu malcheiroso ácido sulfuroso(...).

  • Embargo: este conto fala da dependência do Homem face ao automóvel, com a personagem principal a ficar presa ao seu carro, como se este não o deixasse sair do seu interior.
  • Refluxo: uma “fábula” sobre um rei que não quer encarar a morte e manda que todos os mortos sejam encaminhados para um cemitério único. 
  • Coisas: este conto fez-me lembrar, em parte, o livro “Admirável Mundo Novo” (na questão da sociedade organizada por castas) e uma série futurista que vi em tempos na rtp2, Trepalium. Trata-se de uma sociedade futurista, onde cada pessoa tem uma letra que a classifica (e define os seus privilégios) e onde os objectos possuem uma espécie de “vida” (o sofá com febre que leva injecções para se curar, o marco dos correios que desaparece, …). Achei o final surpreendente.

Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.

  • Centauro: a história do último centauro, metade homem, metade cavalo. Como se fossem dois seres presos no mesmo corpo.
  • Desforra: um conto muito curto, um amor singelo.


Saramago é um escritor de histórias inverossímeis, a realidade anda de mãos dadas com a ficção e a forma como descreve as situações por ele imaginadas é muito boa.
Destes contos, o último foi o que gostei menos, parece-me que foi colocado ali como antítese dos restantes (já que começa com alguma violência e termina com a imagem de um amor puro e águas calmas), uma espécie de conclusão do livro. Gostei bastante de “As Coisas”, o “Embargo” e o “Refluxo”.

☆☆☆☆