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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Opinião: A Cadela, de Pilar Quintana

Descrever este livro não é facil, pois é daqueles com histórias aparentemente banais, mas que nos fazem sentir e refletir.
Damaris é uma mulher pobre que sempre desejou ter filhos, sem no entanto o conseguir. Adota uma cadelinha recém nascida, dá-lhe muito amor mas essa relação vai mudar, acompanhando a espiral descendente da personagem. A relação entre Damaris e a cadela é quase de mãe-filha, mas lidar com as expectativas e desilusões nem sempre é fácil.
Rogélio, o marido, no inicio é apresentado como uma pessoa má, que gosta de massacrar os seus cães, no entanto tem atitudes tão ternas e compreensivas que nos leva de algum modo a esquecer a falta de empatia com os seus animais.
Ao longo da narrativa vamos conhecendo o passado de Damaris e outros acontecimentos que ocorreram no local, percebemos que carrega um fardo pesado e esse passado, conjugado com a impossibilidade de ser mãe e o desmoronar do casamento, levam igualmente ao desmoronamento da personagem.
Destaque ainda para as descrições da pobreza local, o estado tempo, fauna e flora locais que, sem serem exaustivos, nos levam a viajar até à Colômbia e quase sentirmos as picadas dos insetos locais.
Um livro muito bem escrito, que se lê num ápice.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Ler: Distância de Segurança by Samanta Schweblin,

Comecei ontem, estou quase a terminar e parece-me que vai ser daqueles livros a ficar na memória.
Não tanto pela história em si, mas pelas sensações que transmite.
Estava a ser uma leitura quase frenética, não o terminei apenas porque as letras já dançavam no papel e dessa forma nem estava a aproveitar a leitura.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Opinião: O quarto dos horrores, de Angela Carter

Em 2020 tinha decidido não participar em desafios de leitura. Mas estes vão surgindo e são interessantes e não conseguimos resistir e fogem da nossa zona de conforto e e e
Pronto, já perceberam a ideia.

Foi graças a um destes desafios, desta vez lançado pela Mafalda do canal A Outra Mafalda, que conheci esta autora e li este livro. Trata-se da #maratonafairytales e são 4 desafios:
1) Ler Conto Tradicional Português
2) Ler Conto Tradicional de outro País 
3) Ler um re-conto de uma história de fadas ou conto tradicional 
4) Ler um livro de Contos Tradicionais ou Contos de Fadas

Este livro de Angela Carter foi uma surpresa. Não estava com nenhuma expectativa, até porque não conhecia a autora e nem me lembro de alguma vez ter lido/visto uma opinião sobre o mesmo. 
Trata-se de um livro de contos, baseados em contos tradicionais, como sejam O Barba Azul, A Bela e o Monstro, A Branca de Neve, O Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, Vampiros, Lobisomens.
Mas estes contos são contados de uma forma peculiar, com finais de que não estamos à espera, cenas de sexo e mulheres poderosas.
Numa versão a Bela transforma-se também ela em algo animal, noutra a avó era o lobisomem, temos o lobisomem que era caçador e é seduzido pela Capuchinho vermelho, uma mãe salva a rapariga das garras de um homem louco... e o nosso Gato das Botas, que com a sua Tabby ajudam os donos a ficarem juntos. 
Não é uma escrita simples e, confesso, alguns contos deixaram-me duvidas sobre o seu significado. 
Acho mesmo que é daqueles livros que merece uma leitura conjunta para troca de impressões. 
Gostei e fiquei tentada a ler os restantes livros da autora que estão disponíveis na biblioteca. 


Nota: Não costumo ler fantasia mas ainda bem que sigo o canal da Mafalda e resolvi participar nesta maratona, foi muito bom sair fora da minha zona de conforto.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Leituras de Novembro

Apesar de no último mês não ter escrito nada, não quero deixar de registar as minhas leituras de Novembro:

  • 4 livros concluídos;
  • 1734 páginas;
  • 4 nacionalidades: Portugal, Brasil, Espanha, Japão
  • livros editados entre 1995 e 2013
  • 1 autor masculino e 3 femininos
  • Entre 3 a 5 estrelas


Gostei muito do livro Filipa de Lencastre, um romance histórico muito bem conseguido (ainda verti umas lágrimas).
O livro Confissões foi também uma boa surpresa, aliás surpresa é mesmo uma boa palavra para o definir, pois cada capitulo trazia uma surpresa com ele.
O livro sobre yoga é um livro técnico, achei interessante mas terei de o reler.
Já o Dispara que eu Já estou Morto desiludiu-me um pouco. Algumas partes achei aborrecidas e tive alguma dificuldade em acompanhar tantas personagens. No entanto a história é boa e acredito que resulte bem para muitas pessoas. A mim cansou-me um pouco (literalmente, já que tem mais de 800 páginas).


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Leituras de Julho

Julho foi um mês de férias, portanto li um pouco mais mas não fiz grandes posts por aqui.
Tenho de destacar dois livros, que foram as minhas leituras de 5 estrelas (pontuação máxima no goodreads) e que penso merecerem uma leitura: Fome e A Pérola que Partiu a Concha.
O primeiro pode não ser uma leitura fácil, em muitos aspectos faz lembrar "O crime e o Castigo" e os dois personagens principais têm alguns traços em comum, a pobreza e a angustia que nos fazem sentir. Mas é um livro que ficou dos meus favoritos do ano.
Já o segundo vale a leitura pela escrita e pelo relato da vida das mulheres no Afeganistão. Para além de ser um livro que prende logo nas primeiras páginas.
Dos livros de 4 estrelas não falei aqui no A Vegetariana, um livro de que gostei e que também trata de conflitos interiores. No entanto, o final fica um pouco em aberto e há respostas que acabamos por não ter.
Sorte foi uma desilusão. é o relato na primeira pessoa da violação da autora, mas apesar do interesse do tema a escrita não prende e tem algumas partes que podemos considerar "uma seca".

Faltou dizer que 4 livros foram escritos por mulheres, 2 por homens.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Opinião: Os Despojados, de URSULA K. LE GUIN

Sinopse

A jornada de um homem em busca da reconciliação de dois mundos
Em Anarres, um planeta conhecido pelas extensas áreas desérticas e habitado por uma comunidade proletária, vive Shevek, um físico brilhante que acaba de fazer uma descoberta científica que vai revolucionar a civilização interplanetária. No entanto, Shevek cedo se apercebe do ódio e desconfiança que isolam o seu povo do resto do universo, em especial, do planeta gémeo, Urras.
Em Urras, um planeta de recursos abundantes, impera um sistema capitalista que atrai Shevek, decidido a encontrar mais liberdade e tolerância. Mas a sua inocência começa a desaparecer perante a realidade amarga de estar a ser usado como peão num jogo político letal.
Que esperança e idealismo restam a Shevek, aprisionado entre dois mundos incapazes de ultrapassar as diferenças? E ao desafiar ambos os regimes políticos, conseguirá ele abrir caminho para os ventos da mudança?


Este não foi um livro fácil de formar opinião, tanto assim que ao longo da leitura pensava em simplesmente não o classificar.
Teve passagens em que o achei genial, muito devido à reflexão sociológica que me levava a fazer. Mas teve também partes que achei bastante aborrecidas, principalmente quando era abordada a teoria em que o nosso protagonista estava a trabalhar.
Anarres e Urras são como a nossa Lua e Terra, sendo que os habitantes de Anarres foram colonos provenientes de Urras, pessoas que se rebelaram contra o sistema vigente e quiseram formar uma nova sociedade.
É aqui que vive Shevek, um físico que se sente limitado pelas fronteiras (e limitações) do seu planeta, pelo que viaja até Urras para que possa desenvolver melhor a sua teoria.
Urras é um planeta muito diferente de Anarres, baseado no capitalismo e com uma sociedade muito patriacal (machista, vá). Em Anarres não existe o conceito de posse, mulheres e homens são encarados como iguais.
Com o desenrolar da leitura fui gostando cada vez mais deste livro e fiquei mesmo com vontade de conhecer os restantes da autora, nomeadamente os referentes ao Ciclo de Hainish, do qual este pode ser considerado uma prequela.
Os Despojados
Inclui este livro no #bookbingoleiturasaosol2019, "último livro que compraste".

terça-feira, 18 de junho de 2019

Opiniões: Demência e Imortalidade

De forma muito resumida, irei dar a opinião conjunta de dois dos últimos livros que li.

Este livro, Demência, andou um pouco na "boca do povo", foram vídeos no youtube, grupos de leitura no goodreads e  publicações em blogs.
Eu conheci-o através do canal da Dora Santos Marques, que no final de 2018 fez um vídeo bastante sentido sobre este livro. Fiquei logo com vontade de o ler mas estava esgotado.
Em 2019 este livro foi reeditado, a Dora fez incluisivé uma entrevista com a autora e foi também ela que me emprestou este volume para ler (temos um clube de leitura em conjunto aqui onde moramos).
Mas voltando à minha opinião, em primeira instância, este é um livro sobre violência doméstica, de vários tipos e em várias gerações, sendo que o que se passou na geração da sogra (Olímpia) algo tão abjecto como impensável (mas de alguma forma verossímil).
Mas é também um livro sobre sobrevivência e resiliência, sobre a demência de uma idosa mas também a demência de toda uma aldeia, que ostraciza uma mulher (Letícia) ilibada pela justiça mas condenada pelos habitantes. Porque o "filho da aldeia" era tão bom rapazinho que era impossível ter feito mal à put@ que o matou!
Mas temos também histórias de amor, em gerações diferentes e de diferentes apresentações.
Gostei da descrição da vida na aldeia (porque eu própria passei muitas férias numa pequena aldeia), da história de amor platónico/pueril de Sebastião e Olímpia. já a história de amor entre Gabriel e Letícia pareceu-me um pouco "forçada" na história. 
Este é sem duvida um bom livro, cheio de nuances e várias camadas. Confesso que a parte final não me encheu muito as medidas, por isso não ter dado a classificação máxima. Se recomendo a leitura? Sem dúvida!


Imortalidade parte de uma premissa interessante: quando uma pessoa nasce faz um teste genético, que prevê a idade da sua morte. os que alcançam determinada fasquia são denominados longevos, passando a integrar um programa do estado, onde têm direito a vários tratamentos e "substituições" que lhes prolongam a vida e a aparência, podendo mesmo viver para lá dos 300 anos. Aliás, a "terceira vaga" aproxima-se, onde está prometida a vida eterna.
No entanto, nem todos estão satisfeitos com a promessa de vida eterna, surgindo o auto denominados Clube do Suicídio, que clama pelo direito a morrer.
A personagem principal, Lea, é uma longeva que aspira pela terceira vaga, possuindo uma carreira de sucesso na bolsa de orgãos e um companheiro com perfil genético igualmente favorável. No entanto, um dia reencontra o seu pai, desaparecido à 80 anos, que vem mais tarde a saber, pertence a ao clube do suicídio.
 Ao longo do livro, e devido a algumas ocorrências do passado, ela é confrontada com uma série de novas informações e dilemas, que a levam a por em causa aquilo em que acredita.
Gostei da premissa da história e mesmo da escrita, no entanto julgo que algumas partes deveriam ter ser mais aprofundadas. Aliás, a vida eterna pode não ser uma bênção nem a morte uma tragédia e estes dois pontos poderiam ter sido alvo de uma maior reflexão.



terça-feira, 28 de maio de 2019

Graphic novel: Monstress - Despertar


Este ano decidi sair da minha zona de conforto, dai ter começado a explorar outros géneros literários.
É o caso das graphic novel, que só comecei a ler este ano.

Esta Monstress - Despertar é o primeiro volume de 3 já editados pela Saída de Emergência
Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, eis que nos chega uma história de coragem, vingança e compaixão…
Maika Meiolobo é uma adolescente que sobreviveu a uma guerra cataclísmica entre humanos e arcânicos, uma raça híbrida que descende dos Anciãos. Escravizada por bruxas inimigas que suspeitam dos seus poderes latentes, Maika começa a desvendar o seu misterioso passado e, durante o processo, descobre que tem uma ligação psíquica com uma poderosa criatura de outro mundo.Perante a opressão e o terrível perigo, Maika torna-se caçadora e presa, perseguida por aqueles que desejam usá-la, colocando-a no centro de uma guerra devastadora entre forças humanas e sobrenaturais. Enquanto isso, o monstro no seu interior começa a despertar...

Escrita por Marjorie Liu (Americana com origem chinesa) e ilustrada por Sana Takeda (Japonesa) nota-se a influência asiática nas ilustrações e personagens.
Confesso que ao inicio estava com dificuldade em compreender a história, mas com o avançar das páginas começa a fazer sentido. E a certo ponto surge um gato que nos vai explicar algumas coisas sobre este mundo que estamos a descobrir.
Maika  é uma arcânica mas muito semelhante a uma adolescente humana, que está a tentar descobrir quem verdadeiramente é, acabando por descobrir ter um "monstro" dentro de si a despertar... Aborda temas como a escravidão, a xenofobia, a ética, numa sociedade formada por 5 raças, onde vemos uma forte presença feminina.
Adorei as ilustrações, a história achei razoável...mas talvez seja falta de hábito na ficção cientifica.
No entanto, fiquei com vontade de ler o resto da colecção.

☆☆☆☆


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Opinião: Sonhos Malditos, de Carina Rosa (conto)


Foi o meu segundo contacto com esta autora, o primeiro foi um pequeno romance, A Rapariga do Lago, o qual recomendo a leitura.

Em Sonhos Malditos a temática é muito diferente, trata-se de uma rapariga feiticeira/bruxa, Teresa, que por um acaso (ou talvez não) reencontra um amor de infância, o Henrique.

É um conto dentro da temática fantasia/sobrenatural, onde surgem premonições, objectos voadores,espíritos que se manifestam e até uma ressuscitação.

Achei o conto interessante e bem contado, no entanto penso que falta algo, talvez o desenvolver mais a história e as personagens. Fiquei com a sensação que tudo acontece demasiado rápido e que a história acaba por ser contada de forma muito superficial.

Uma vez que se lê rápido, acaba por ser bom para entreter e ler numa qualquer pausa ao longo do dia.
⭐⭐⭐

terça-feira, 30 de abril de 2019

Opinião: A Grande Solidão, de Kristin Hannah




O que dizer sobre um livro que me fez chorar? Que, depois de o terminar, me fez estar um dia inteiro sem ler mais nada, como se estivesse a fazer um luto pelas personagens?
Existem livros assim, que nos fazem mergulhar na história, sofrer com as personagens e quase desejar entrar pelas páginas dentro e abanar algumas delas, em que desejamos chegar depressa ao final porque, caramba, o livro tem de ter um final feliz e eu quero ler esse final!
Fala sobre violência doméstica, sobre o amor, sobre pessoas marcadas pela guerra e malucos da conspiração. Tem também uma componente de que gosto particularmente, a vida em ambientes mais inóspitos, onde é preciso trabalhar para sobreviver.
Foi uma grande leitura, fiquei com vontade de lar mais da autora (dizem que O Rouxinol é tão bom ou melhor do que este).
Li no âmbito do projeto da Dora Santos Marques #projectokristinhannah (se bem que serviu também para a #MLVoltaaoMundo15)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Opinião: A Gente de July, de Nadine Gordimer


Por vezes há livros que não lemos na altura certa ou com os conhecimentos certos. Penso que este foi um deles.
A história é boa, a escrita também, mas não resultou plenamente para mim.

Neste livro temos uma família de "brancos", em 1981, que foge da cidade onde vive, devido a uma revolução da maioria negra do país contra a minoria branca no poder. Seguem então o seu criado July para a aldeia natal dele, onde vão viver numa das cabanas, longe das mordomias a que estavam habituados e numa realidade bem diferente da sua.
A relação com July fica também diferente e com alguma tensão implícita, por um lado continua com algumas atitudes servis, por outro tenta emancipar-se, "ficar por cima" e vai-se apoderando de alguma forma dos bens dos antigos patrões, como se estes quase fossem prisioneiros daquele local. Tudo de forma educada e ordeira mas nota-se que a família se vai sentindo prisioneira do local, mas agradecidos por terem onde se abrigar da convulsão da cidade.

Tal como nos seus outros romances, Nadine Gordimer em A gente de July aborda o tema do Apartheid, através de uma história que decorre num futuro hipotético, tendo o livro sido banido do ensino já depois da queda do apartheid.


Nadine Gordimer venceu o Booker Prize em 1974 e o Prémio Nobel da Literatura em 1991, e foi uma voz influente contra a segregação durante o regime do appartheid. Mas não só, ela participou activamente noutras "lutas" (racismo, sida ou qualquer tipo de descriminação) sendo uma figura sobre a qual vale a pena saber mais.

Fonte da imagem: Artnet


terça-feira, 23 de abril de 2019

Opinião: Vozes de Chernobyl, de Svetlana Alexievich


A minha segunda experiência com esta autora, vencedora do Nobel da literatura 2015.
Neste livro Svetlana apresenta-nos relatos de pessoas que viveram a tragédia nuclear de Chernobyl, ocorrida em 26 de Abril de 1986.
São relatos crus, sofridos, em que nos apercebemos da tentativa de silenciamento por parte das autoridades, mas também da bravura e coragem de quem primeiro atacou as chamas ou de alguma forma contribuiu para que este desastre não assumisse maiores proporções.
Homens que trabalhavam onde nem os robots aguentavam trabalhar.
Homens que trabalharam sem saber a que radiação estavam expostos ou a quem lhes era dada uma informação incorrecta.
Mulheres que sofreram pelos maridos, que lutaram estar ao pé deles enquanto estes sofriam uma morte horrível, em consequência da radiação a que foram sujeitos. Quando eles próprios estava radioactivos e contaminavam as suas mulheres ou restante família (e que mais tarde vieram a sofrer as consequências).
Homens e mulheres desalojados das suas casas (onde mais tarde passaram esquadrões para matar os animais de estimação), casas que mais tarde foram saqueadas, com objectos que provavelmente entraram no circuito comercial (como saber se temos objectos de metal em casa com metal proveniente de Chernobyl?).
Alimentos que eram proibidos para consumo, mas mesmo assim entraram no circuito comercial.

Muito mais poderia ser dito, muitas mais reflexões podemos fazer a partir da leitura deste livro.
Para completar o tema, recomendo o visionamento do documentário Café de Chernobyl, que em tempos passou na RTP e ao qual já dei  minha opinião aqui.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Opinião: A Carne, de Rosa Montero

Este livro foi, sem duvida, uma boa surpresa (e é tão bom quando estas surpresas acontecem...).
Trata da relação entre uma mulher na casa dos 60, Soledad, madura, independente, solteira, e um "gigolo" que ela um dia contrata, com o objetivo de causar ciumes ao seu último amante.
Podia ser apenas sobre uma relação amorosa entre duas gerações diferentes, mas é muito mais do que isso: o medo da passagem do tempo, da velhice, das doenças que daí poderão advir, da solidão, da loucura...
Soledad reflete muitas vezes de algo que poucas vezes pensamos: nunca sabemos se este momento é a última vez que respiramos, amamos, comemos e, porque não, a última vez que escrevemos a opinião sobre um livro ou a última vez que lemos uma opinião escrita por um desconhecido.
Para além da história do livro Soledad, que está a organizar uma exposição a que chamará "Escritores Malditos" vai-nos dando a conhecer histórias interessantes sobre outros escritores, o que aumenta o interesse da história.
Outra curiosidade do livro é a autora, Rosa Montero, surgir como personagem na história, encontrando-se com Soledad para esclarece-la sobre uma autora que quer incluir na sua exposição (fez-me lembrar o realizador M. Night Shyamalan, que costuma ter um pequeno papel nos filmes que realiza).
Sem duvida que recomendo este livro

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Opinião: As máscaras do Destino, de Florbela Espanca


Desconhecia que Florbela Espanca tivesse escrito prosa, até ler num blog literário (não me recordo qual) um comentário a falar deste livro. Tive curiosidade e como estava disponível na biblioteca, requisitei-o.

Este livro contém oito contos, escritos em prosa poética. É um livro para ser lido devagar, a apreciar cada frase:
· O Aviador
· A Morta
· Os Mortos não Voltam
· O resto é perfume
· A paixão de Manuel Garcia
· O Inventor
· As Orações de Soror Maria da Pureza
· O Sobrenatural

A morte está sempre presente nestes contos, aliás o livro foi escrito após a morte do seu irmão, Apeles Espanca, vítima da queda, no rio Tejo, do hidro-avião que pilotava. E é esse episódio, parece-me, que dá inspiração ao primeiro conto, O Aviador

“deixem-no… talvez lhe doam as asas quebradas…” (…) E aquele que tinha sido filho dos homens ficou a dormir na eternidade como se fora um filho dos deuses.”


No conto “A Morta” temos uma jovem, que já estará morta, que se atira ao rio (será que estaria morta por dentro, como Florbela se sentia após a morte do irmão?)
“Isto aconteceu. 
A Morta ouviu dar a última badalada da meia-noite, ergueu os braços, e levantou a tampa do caixão. Desceu devagarinho, circunvagou em redor os olhos de pupilas sem luz; os outros mortos, bem mortos, dormiam pesadamente.“ (…) “Foi então que lhe chegou aos ouvidos um ciciar brandinho... Seriam passos?... Rufiar de asas?... Folhas de Outono tombando?... 

E a Morta parou. 
Marulho de ondas pequeninas. O rio.” 

(…) 
“Debruçou-se... Marulho de ondas... E a morta foi mais uma onda, uma onda pequenina, uma onda azul na taça de prata a faiscar... 

Isto aconteceu.”



Também o conto “O Inventor” me parece poder ter sido escrito em recordação do irmão:

“Quando pela primeira vez voou, não se esqueceu de sentar na carlinga, ao seu lado, ao lado do seu coração, aquela que dali em diante seria a companheira de todos os dias, a companheira indefectível de todos os aviadores: a Morte.” (…) 

“No dia seguinte de manhã, quando o avião sulcou de novo os ares como uma grande gaivota pairando sobre o rio, o aviador olhou para o lado, ao lado do seu peito, na carlinga, e sorriu à companheira invisível que não quisera expulsar.” 

Como é óbvio, gostei mais de alguns contos, por exemplo “Os mortos não Voltam” e “O perfume” não me ficaram na memória.
Li algures que alguns estudiosos desconfiam de um amor incestuoso entre Florbela e Apeles, não sei se será verdade, mas o facto é que estes contos parecem retratar o que ela sentiu com a morte do irmão. Por exemplo “As Orações de Soror Maria da Pureza”, onde retrata uma jovem de 15 anos, que namora ao portão com um homem de 30 por mais de 1 ano – um amor platónico. Findo esse tempo, dizem-lhe que este faleceu e é como se ela morresse em vida, acabando por ir para um convento. Ou o conto “Os mortos não voltam”:

Os mortos não voltam, e é melhor que assim seja... Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?... Eles vão, e a gente fica, e ri, e canta, e deseja, e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós mesmos, a gente é como estes vermes repugnantes que, cortados aos pedaços, criam novas células, completam-se e continuam a rastejar e a viver! É uma miséria, é, mas é assim!


☆☆☆☆

Na pesquisa que fiz descobri que o nascimento de Florbela Espanca tem também ele uma história singular

Ao descobrir que Mariana não pode dar à luz (madrasta de Florbela), João Maria (pai) consegue convencê-la de uma regra medieval, segundo a qual, quando a mulher não pode ter filhos, o homem está autorizado a cometer adultério, de modo a ter, através de outra mulher os filhos que a esposa não lhe pode dar, filhos esses que depois traria para o lar.

Com o consentimento de Mariana, em 1894, João Maria procura Antónia Lobo, uma mulher humilde, vistosa e desejada na vila, que trabalhava como criada de servir, raptando-a uma noite para a engravidar e mantendo-a escondida durante toda a gravidez.Finalmente, a 8 de Dezembro, Florbela nasce e é baptizada como Flor Bela Lobo, filha de Antónia e de pai incógnito; a madrinha é Mariana, que depois levará Florbela para casa e a tratará como filha. É a casa de Mariana e João Maria Espanca que a Mãe de Florbela se vai dirigir para a amamentar.

Sinto que não tenho maturidade ou conhecimentos suficientes para apreciar devidamente a escrita de Florbela e identificar todos os sentimentos que nos quis transmitir com estes textos. Mas acho que valem uma leitura (até porque é um livro pequeno, se se lê bem) principalmente pela beleza das palavras.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Opinião: Persépolis


Esta foi a minha estreia em "graphic novels" para adultos (que é como quem diz, banda desenhada) e não desiludiu.


É um relato autobiográfico que retrata a vida de Marjane Satrapi, a sua infância no Irão, a passagem pela vida em Viena e o regresso ao Irão.
Neste livro somos confrontados com a revolução Iraniana, a guerra, o aumento da repressão sobre as populações (não podem beber, fazer festas, jogar, ... ).
Com um sentido de humor caustico, algumas passagens fazem-nos rir, outras levam-nos às lágrimas mas todo o livro nos faz reflectir sobre a realidade iraniana e os nossos preconceitos por esta zona do globo.
Para além da vida no Irão, relata também as dificuldades do crescimento de uma jovem, dividida entre a modernidade e a tradição, a sua revolta e o voltar às origens.
Sem duvida que recomendo.
☆☆☆☆☆




Persépolis em grego clássico: Περσέπολις; transl.: Persépolis , lit. "A cidade persa"

quarta-feira, 27 de março de 2019

Opinião: Dezanove minutos, de Jodi Picoult

Este livro foi a minha estreia na leitura de Jodi Picoult, uma autora que é muito falada no booktube nacional, com boas opiniões.

A história em si é bastante interessante: um rapaz Peter comete um atentado numa escola, matando 10 pessoas e ferindo muitas outras.
Ao longo do livro vamos avançando e recuando no tempo, conhecendo o passado dele e da sua ex melhor amiga, Josie.
Percebemos que Peter foi vitima de bullying desde que começou a frequentar a escola, com os atos que sofria a virem a ser agravados ao longo dos anos. Perdeu a amiga Josie, que acabou por se mudar para o lado dos "populares", passando a namorar com um dos rapazes mais populares da escola (e que é altamente manipulador, cometendo inclusive alguns atos de violência com Josie, que o perdoa porque "ela é que se portou mal". Esta relação daria para outro livro sobre violência no namoro). 
Para além do bullying, este livro retrata também os dramas da adolescência - a solidão, o querer fazer parte do grupo, o agir contra a nossa consciência apenas para ser aceite, a gravidez na adolescência - mas também o choque dos pais que descobrem um dia que o seu filho é um assassino, a dificuldade de gerir a vida profissional e pessoal quando ambas podem entrar em conflito... são muitos temas fortes num mesmo livro.
Faz-nos também reflectir que para cada ato há sempre uma justificação, mesmo que nada justifique um atentado numa escola: ao sabermos tudo o que Peter passou, as injustiças, humilhações (mesmo que algumas situações fossem talvez exacerbadas na sua mente) sem apoio dos adultos, conseguimos compreender o monstro em que se tornou. Possivelmente Peter teria beneficiado de apoio psicológico para ultrapassar os inúmeros traumas que sofreu ao longo da infância, mas essa necessidade nunca foi identificada por nenhum dos adultos que o acompanharam.

Apesar de não me ter enchido as medidas (expectativas muito altas, suponho) é um livro muito bom, que merece ser lido.
☆☆☆☆

terça-feira, 12 de março de 2019

Projetos pessoais: Viajar com os livros e Mais Mulheres

#ViajarComOsLivros 
Quando iniciei o blog tive vontade de registar os países por onde ia "passando", isto considerando a nacionalidade dos autores que leio.
Devido a esse desejo, comecei a escolher os livros que leio também pela nacionalidade de quem os escreve.
Em 2018 li autores de 15 países diferentes, com destaque para Portugal (19 livros), EUA (7) e Inglaterra (7).
Este ano já consegui acrescentar 6 países, entre os quais dois países africanos!
Não estou a contar com autores que li no passado, antes de ter blog ou estar na plataforma Goodreads (se contasse com esses, teria mais uns quantos países visitados).
Acho que este meu desafio pessoal já merece uma etiqueta só para ele - #ViajarComOsLivros parece-me bem, já que é o nome que dou ao meu mapa de viagens (ali na aba direita).
A pouco e pouco vou atualizar no blog as publicações que se relacionem com este projeto pessoal, nomeadamente os livros relacionados com primeiras leituras dessa nacionalidade.

A Cláudia, do blog A Mulher que Ama Livros tem um desafio idêntico, a que chamou "do quarto para o mundo". Foi onde li a opinião do livro A Menina que Sorria Contas, que me fez querer lê-lo (e acredito que ainda vá lá buscar inspiração para mais alguns países).



#MaisMulheres

Outro projeto pessoal consiste em ler mais autoras femininas, pelo que vou criar igualmente uma etiqueta aqui no blog, para registo de sempre que leia um livro escrito por uma mulher (já tenho o #marçofeminino mas neste caso irá durar o ano inteiro).
Em 2018 li 19 livros escritos por mulheres, 34 por homens e 3 por uma dupla (Lars Kepler, pois claro). Nunca tinha reparado nesta tendência de ler no masculino, algo a que comecei a prestar mais atenção ao ler alguns textos do blog Desabafos Agridoces. Porque lemos mais homens? Não será por serem melhores, certamente. Talvez porque são mais divulgados? Por terem mais facilidade em publicar? Não sei... mas numa época cheia de antagonismos como a nossa, em que de um lado se grita pela igualdade de géneros, do outro criam-se programas de lixo televisivo em que as mulheres são tratadas como gado (com a conivência de outras mulheres) se calhar todas nós temos de passar a ser um pouco mais feministas ou, pelo menos, dar mais voz ao nosso género

Opinião: A menina que sorria contas, de Clemantine Wamariya

“É estranho como se começa por ser uma pessoa longe de casa e se passa a ser uma pessoa sem casa. O lugar que, supostamente, nos devia receber expulsa-nos. Nenhum outro lugar nos acolhe. É-se indesejado, por toda a gente. É-se um refugiado.”


Mais um livro de não-ficção e mais um tema "pesado".
Clemantine era uma criança de 6 anos quando teve de fugir de casa com a irmã, de 16, por motivos que na altura não compreendeu.

Foi quando os pais começaram a falar baixo, a ficar mais por casa, os vizinhos começaram a desaparecer.... fuga causada pelo inicio do genocídio do Ruanda, uma história sangrenta que parece quase impossível: pessoas que matavam desconhecidos, vizinhos, amigos e até familiares, simplesmente por terem uma etnia diferente!

No livro temos uma Clemantine atual (cerca de 30 anos) que conta a fuga com a irmã Claire, como se sentia assustada, abandonada, carente de afeto mas impossibilitada de também ela dar esse afeto, devido às constantes fugas, ao constante medo.
Ela e a irmã andaram a circular entre campos de refugiados, entre diversos países (mais de 4000 km). Claire casou teve filhos, mas percebemos que Claire é que é a guerreira, é quem toma conta da família, através do seu empreendedorismo. (O marido é um parvalhão que lhe bate e a trata mal). E é graças à proactividade de Claire que elas conseguem ir para os Estados Unidos da América, onde Clemantine é acolhida por uma família e consegue assim estudar e tirar um curso superior.

O livro alterna entre recordações do passado, da fuga, da vivência nos campos de refugiados e outros locais igualmente tenebrosos, da fome, dos piolhos, de outros parasitas que as atacavam, ... e recordações do inicio da vida na América, do seu percurso escolar, da revolta, o fingir que tem tudo controlado quando afinal está completamente destruída por dentro.

Logo no inicio do livro temos o reencontro das duas irmãs com a família, num programa da Oprah. Apesar da emoção, percebemos que são todos estranhos uns para os outros, todos têm o seu trauma interior que, percebemos mais tarde, não conseguem partilhar uns com os outros. 

Outros pontos de destaque do livro: 
- o tratamento dado às mulheres na sociedade dela (cuidado para não seres violada, pois ficas "estragada"; aguenta o teu marido que te bate, quando os filhos crescerem ele deixará de o fazer, pois quer agradar aos filhos; os "miúdos" de galinha que elas nunca tinham provado, pois eram reservadas aos homens, tal como a comida, que era prioritariamente dada a eles, ....). 
- as leituras que ela faz de temas ligados ao holocausto, fiquei com mais algumas sugestões de títulos/autores a ler.
- a descrição de alguns hábitos da sociedade Ruandesa


Um livro que merece a sua leitura.
☆☆☆☆☆

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião: Escrava, de Mende Nazer

Este livro conta a história real, que infelizmente ainda acontece no Sudão: crianças e mulheres que são retiradas das suas aldeias (raptadas) para serem vendidas como escravas.
Foi o que aconteceu a Mende, que pertencia à tribo Nuba, no Sudão do Sul. Retirada à força da sua família, num assalto violento à sua aldeia, foi raptada e vendida como escrava para uma família árabe
do Sudão. Uma prática que percebemos ser comum nesse país, onde ocorre uma grande descriminação sobre estas tribos e minorias étnicas.
Com cerca de 12 anos, Mende deixa de ter infância, passando a trabalhar dia e noite na casa dos seus "donos", que apenas lhe "oferecem" dormida num barracão sem quaisquer condições, restos das refeições e muitos maus tratos físicos e verbais.

No seu relato, percebemos que a vida de escravatura vai a pouco e pouco destruindo o seu ser, para além de deixar de ter infância é como se deixasse de ter identidade própria. Ela refugia-se nas memórias felizes da sua infância, numa tentativa de manter a sua sanidade mental.
Só quando é enviada para Londres (passada como escrava para a irmã da anterior "dona") é que consegue escapar.

É realmente um retrato perturbador e é também perturbador pensar que nos dias de hoje esta é uma realidade de muitas crianças, cuja infância lhes é retirada.
Na primeira parte do livro temos uma descrição da infância de Mende onde surge o relato da sua circuncisão (impressionante), mas também vemos que teve uma infância feliz, cheia de sonhos como qualquer criança. A segunda parte é o relato da vida de escravatura, onde acredito que nem metade do que sofreu seja relatado.

Triste pensar que esta é uma realidade que ainda existe, milhares de crianças (e mulheres) que são forçadas à escravatura, de forma quase aberta nessa sociedade. Sem direitos, sem identidade.



☆☆☆☆☆

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Opinião:O Tatuador de Auschwitz


Em janeiro comemoraram-se os 74 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau e por esta altura alguns canais do youtube - incluindo o da Dora Santos Marques que este ano criou a hashtag  #hol74 organizam leituras sobre o tema.
No ano passado li dois livros sobre a temática, sendo o meu preferido o de Primo Levi:

  


Em relação a este livro "O Tatuador de Auschwitz" gostei mas não me "encheu as medidas".
É uma história verídica sobre um jovem - Lale - que vai parar a este campo de concentração e decide que irá sobreviver, a todo o custo.
Lá acaba por se tornar no tetovier (tatuador principal do campo, cuja função é tatuar no braço o número de cada prisioneiro), o que lhe deu acesso a alguns "privilégios" extra. É nessa função que conhece Gita, uma jovem por quem se acaba por apaixonar.
O livro gira então à volta da vida no campo de concentração, no romance entre Lale e Gita, na forma como ele tenta sobreviver (contando com a ajuda de trabalhadores externos ao campo, que lhe trazem comida enquanto ele lhes dá dinheiro e jóias que alguma prisioneiras conseguem arranjar).
Um livro sobre resistência humana e sobre um amor em tempos muito difíceis.
Destaque para alguns relatos da realidade do campo, das atrocidades que são cometidas, da chegada de Josef Mengele (o médico da morte), do facto de no final, após ter conseguido sair daquele campo, haver pessoas que nem sabiam o que se passava por lá.
☆☆☆☆ (seria mais 3 e meia)
#hol74