Desconhecia que Florbela Espanca tivesse escrito prosa, até ler num blog literário (não me recordo qual) um comentário a falar deste livro. Tive curiosidade e como estava disponível na biblioteca, requisitei-o.
Este livro contém oito contos, escritos em prosa poética. É um livro para ser lido devagar, a apreciar cada frase:

· O Aviador
· A Morta
· Os Mortos não Voltam
· O resto é perfume
· A paixão de Manuel Garcia
· O Inventor
· As Orações de Soror Maria da Pureza
· O Sobrenatural
A morte está sempre presente nestes contos, aliás o livro foi escrito após a morte do seu irmão, Apeles Espanca, vítima da queda, no rio Tejo, do hidro-avião que pilotava. E é esse episódio, parece-me, que dá inspiração ao primeiro conto, O Aviador
“deixem-no… talvez lhe doam as asas quebradas…” (…) E aquele que tinha sido filho dos homens ficou a dormir na eternidade como se fora um filho dos deuses.”
No conto “A Morta” temos uma jovem, que já estará morta, que se atira ao rio (será que estaria morta por dentro, como Florbela se sentia após a morte do irmão?)
“Isto aconteceu.
A Morta ouviu dar a última badalada da meia-noite, ergueu os braços, e levantou a tampa do caixão. Desceu devagarinho, circunvagou em redor os olhos de pupilas sem luz; os outros mortos, bem mortos, dormiam pesadamente.“ (…) “Foi então que lhe chegou aos ouvidos um ciciar brandinho... Seriam passos?... Rufiar de asas?... Folhas de Outono tombando?...
Marulho de ondas pequeninas. O rio.”
“Debruçou-se... Marulho de ondas... E a morta foi mais uma onda, uma onda pequenina, uma onda azul na taça de prata a faiscar...
Também o conto “O Inventor” me parece poder ter sido escrito em recordação do irmão:
“Quando pela primeira vez voou, não se esqueceu de sentar na carlinga, ao seu lado, ao lado do seu coração, aquela que dali em diante seria a companheira de todos os dias, a companheira indefectível de todos os aviadores: a Morte.” (…)
“No dia seguinte de manhã, quando o avião sulcou de novo os ares como uma grande gaivota pairando sobre o rio, o aviador olhou para o lado, ao lado do seu peito, na carlinga, e sorriu à companheira invisível que não quisera expulsar.”
Como é óbvio, gostei mais de alguns contos, por exemplo “Os mortos não Voltam” e “O perfume” não me ficaram na memória.
Li algures que alguns estudiosos desconfiam de um amor incestuoso entre Florbela e Apeles, não sei se será verdade, mas o facto é que estes contos parecem retratar o que ela sentiu com a morte do irmão. Por exemplo “As Orações de Soror Maria da Pureza”, onde retrata uma jovem de 15 anos, que namora ao portão com um homem de 30 por mais de 1 ano – um amor platónico. Findo esse tempo, dizem-lhe que este faleceu e é como se ela morresse em vida, acabando por ir para um convento. Ou o conto “Os mortos não voltam”:
Os mortos não voltam, e é melhor que assim seja... Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?... Eles vão, e a gente fica, e ri, e canta, e deseja, e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós mesmos, a gente é como estes vermes repugnantes que, cortados aos pedaços, criam novas células, completam-se e continuam a rastejar e a viver! É uma miséria, é, mas é assim!
☆☆☆☆
Na pesquisa que fiz descobri que o nascimento de Florbela Espanca tem também ele uma história singular
Ao descobrir que Mariana não pode dar à luz (madrasta de Florbela), João Maria (pai) consegue convencê-la de uma regra medieval, segundo a qual, quando a mulher não pode ter filhos, o homem está autorizado a cometer adultério, de modo a ter, através de outra mulher os filhos que a esposa não lhe pode dar, filhos esses que depois traria para o lar.
Com o consentimento de Mariana, em 1894, João Maria procura Antónia Lobo, uma mulher humilde, vistosa e desejada na vila, que trabalhava como criada de servir, raptando-a uma noite para a engravidar e mantendo-a escondida durante toda a gravidez.Finalmente, a 8 de Dezembro, Florbela nasce e é baptizada como Flor Bela Lobo, filha de Antónia e de pai incógnito; a madrinha é Mariana, que depois levará Florbela para casa e a tratará como filha. É a casa de Mariana e João Maria Espanca que a Mãe de Florbela se vai dirigir para a amamentar.
Sinto que não tenho maturidade ou conhecimentos suficientes para apreciar devidamente a escrita de Florbela e identificar todos os sentimentos que nos quis transmitir com estes textos. Mas acho que valem uma leitura (até porque é um livro pequeno, se se lê bem) principalmente pela beleza das palavras.