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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Querem um livro para se rirem? "Três homens num Bote"



Este livro foi uma feliz surpresa, dei umas boas gargalhadas em algumas partes, noutras apenas sorri e apreciei o fino humor inglês. 
"Tudo tem os seus inconvenientes, como dizia o outro, quando, tendo-lhe morrido a sogra, vieram apresentar-lhe a conta do enterro"
"No caso presente, voltando ao reclamo das pílulas para o fígado, eu tinha bem evidentes os sintomas hepáticos, dos quais o principal é uma imensa aversão ao trabalho, sob qualquer forma" 

E a descrição de um banho no mar mais engraçada que alguma vez li:
"Uma vez ou duas a virtude triunfou: levantei-me às seis horas, vesti-me sumariamente, peguei no fato de banho e na toalha e, um tanto contrariado, pus-me a caminho. Mas o banho não me deu o mínimo prazer. Parece que reservam especialmente para mim, quando vou tomar banho de manhã cedo, um ventinho do nordeste particularmente cortante, escolhem todas as pedrinhas aguadas, para porem ao de cima, afiam as rochas e escondem-nas sob uma leve camada de areia, para que eu não as veja e fazem recuar o mar a três quilómetros de distância. De modo que me vejo obrigado a agasalhar-me com os meus próprios braços e a correr e a tremer e a chapinhar numa água de quinze centímetros de altura. Quando chego ao mar, a água está gelada e desagradável. Uma onda enorme empurra-me e atira-me com toda a força contra um rochedo que puseram ali de propósito para me magoar. E antes que eu tenha tempo de gritar: Ai! ai! e de verificar os estragos, a onda recua e leva-me para o largo. Começo então a nadar freneticamente para terra, perguntando a mim mesmo se tornarei a ver a minha casa e os meus amigos, e sentindo remorsos de não ter sido mais afectuoso com a minha irmãzita, quando era garoto. Acabo de perder toda a esperança quando uma onda, ao retirar-se, me deixa estendido na areia, como se eu fosse uma estrela-do-mar e, quando me levanto, reparo que estive a nadar como um louco em sessenta centímetros de água.

Bom humor inglês a um livro de distância!

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Opinião: A Sibila, de Par Lagerkvist


"Não odeias o deus que te tratou dessa maneira, que te fez tudo isso? Não odeias esse ser tão absurdamente cruel?
A velha esperou um pouco antes de responder: parecia refletir. Depois, disse:
Não sei quem ele é. Como poderia, assim, odiá-lo? Ou Amá-lo? Em verdade, parece-me que não o odeio, e que não o amo.
Pensando bem, acho que tais palavras não têm sentido quando se trata dele. Não é como nós e não podemos compreendê-lo. É incompreensível, insondável. É deus.
"



Este livro  foi publicado no nosso país em 1959 e ao longo da leitura não pude deixar de pensar no porquê de Saramago a ter traduzido. Em certa medida, as inquietações religiosas que o autor levanta podem ser comparadas às que Saramago também aborda no Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Neste livro temos duas personagens - o homem que não deixou o filho de deus se encostar na sua casa, durante o calvário, e por isso foi amaldiçoado por ele -  e uma Pítia do santuário de Delfos, mulher que era possuída pelo espírito do deus e através da qual os sacerdotes do templo interpretavam a sua mensagem.



Gostei de ler este clássico (eu gosto de ler clássicos) mas é uma narrativa que pode não prender toda a gente, já que temos as duas personagens a contar a sua própria história, com destaque para a voz da Pítia. Mas levanta algumas questões interessantes, faz-nos pensar e reflectir.  

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Opinião: As máscaras do Destino, de Florbela Espanca


Desconhecia que Florbela Espanca tivesse escrito prosa, até ler num blog literário (não me recordo qual) um comentário a falar deste livro. Tive curiosidade e como estava disponível na biblioteca, requisitei-o.

Este livro contém oito contos, escritos em prosa poética. É um livro para ser lido devagar, a apreciar cada frase:
· O Aviador
· A Morta
· Os Mortos não Voltam
· O resto é perfume
· A paixão de Manuel Garcia
· O Inventor
· As Orações de Soror Maria da Pureza
· O Sobrenatural

A morte está sempre presente nestes contos, aliás o livro foi escrito após a morte do seu irmão, Apeles Espanca, vítima da queda, no rio Tejo, do hidro-avião que pilotava. E é esse episódio, parece-me, que dá inspiração ao primeiro conto, O Aviador

“deixem-no… talvez lhe doam as asas quebradas…” (…) E aquele que tinha sido filho dos homens ficou a dormir na eternidade como se fora um filho dos deuses.”


No conto “A Morta” temos uma jovem, que já estará morta, que se atira ao rio (será que estaria morta por dentro, como Florbela se sentia após a morte do irmão?)
“Isto aconteceu. 
A Morta ouviu dar a última badalada da meia-noite, ergueu os braços, e levantou a tampa do caixão. Desceu devagarinho, circunvagou em redor os olhos de pupilas sem luz; os outros mortos, bem mortos, dormiam pesadamente.“ (…) “Foi então que lhe chegou aos ouvidos um ciciar brandinho... Seriam passos?... Rufiar de asas?... Folhas de Outono tombando?... 

E a Morta parou. 
Marulho de ondas pequeninas. O rio.” 

(…) 
“Debruçou-se... Marulho de ondas... E a morta foi mais uma onda, uma onda pequenina, uma onda azul na taça de prata a faiscar... 

Isto aconteceu.”



Também o conto “O Inventor” me parece poder ter sido escrito em recordação do irmão:

“Quando pela primeira vez voou, não se esqueceu de sentar na carlinga, ao seu lado, ao lado do seu coração, aquela que dali em diante seria a companheira de todos os dias, a companheira indefectível de todos os aviadores: a Morte.” (…) 

“No dia seguinte de manhã, quando o avião sulcou de novo os ares como uma grande gaivota pairando sobre o rio, o aviador olhou para o lado, ao lado do seu peito, na carlinga, e sorriu à companheira invisível que não quisera expulsar.” 

Como é óbvio, gostei mais de alguns contos, por exemplo “Os mortos não Voltam” e “O perfume” não me ficaram na memória.
Li algures que alguns estudiosos desconfiam de um amor incestuoso entre Florbela e Apeles, não sei se será verdade, mas o facto é que estes contos parecem retratar o que ela sentiu com a morte do irmão. Por exemplo “As Orações de Soror Maria da Pureza”, onde retrata uma jovem de 15 anos, que namora ao portão com um homem de 30 por mais de 1 ano – um amor platónico. Findo esse tempo, dizem-lhe que este faleceu e é como se ela morresse em vida, acabando por ir para um convento. Ou o conto “Os mortos não voltam”:

Os mortos não voltam, e é melhor que assim seja... Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?... Eles vão, e a gente fica, e ri, e canta, e deseja, e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós mesmos, a gente é como estes vermes repugnantes que, cortados aos pedaços, criam novas células, completam-se e continuam a rastejar e a viver! É uma miséria, é, mas é assim!


☆☆☆☆

Na pesquisa que fiz descobri que o nascimento de Florbela Espanca tem também ele uma história singular

Ao descobrir que Mariana não pode dar à luz (madrasta de Florbela), João Maria (pai) consegue convencê-la de uma regra medieval, segundo a qual, quando a mulher não pode ter filhos, o homem está autorizado a cometer adultério, de modo a ter, através de outra mulher os filhos que a esposa não lhe pode dar, filhos esses que depois traria para o lar.

Com o consentimento de Mariana, em 1894, João Maria procura Antónia Lobo, uma mulher humilde, vistosa e desejada na vila, que trabalhava como criada de servir, raptando-a uma noite para a engravidar e mantendo-a escondida durante toda a gravidez.Finalmente, a 8 de Dezembro, Florbela nasce e é baptizada como Flor Bela Lobo, filha de Antónia e de pai incógnito; a madrinha é Mariana, que depois levará Florbela para casa e a tratará como filha. É a casa de Mariana e João Maria Espanca que a Mãe de Florbela se vai dirigir para a amamentar.

Sinto que não tenho maturidade ou conhecimentos suficientes para apreciar devidamente a escrita de Florbela e identificar todos os sentimentos que nos quis transmitir com estes textos. Mas acho que valem uma leitura (até porque é um livro pequeno, se se lê bem) principalmente pela beleza das palavras.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Soneto do Prazer Maior - Bocage

Bocage: Soneto do prazer maior

Amar dentro do peito uma donzella;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Fallar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janella:

Fazel-a vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertal-a nos braços casta e bella:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a bocca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vel-a rendida emfim a Amor fecundo;
Dictoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.


(e-book que estou a ler para a  #mllivropólio. Não é uma leitura fácil, pois às tantas os poemas tornam-se repetitivos, mas não deixa de ser interessante)

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Excertos#2


Excertos#2 

"Quando me lembrava que tudo tinha saído das suas mãos e da alma daquele homem, sem meios técnicos, compreendia que os homens poderiam ser tão eficazes como Deus em algo mais que a destruição. 
(...)
Quando penso que um homem sozinho, reduzido aos seus simples recursos físicos e morais, bastou para fazer surgir do deserto esta terra prometida, penso também que, apesar de tudo, a condição humana é admirável. Mas quando considero a grandeza de alma e a generosidade necessárias para obter este resultado, sinto um imenso respeito por esse velho camponês sem cultura que soube realizar obra digna de Deus. "
In: "O Homem que Plantava Árvores", de Jean Giono




Um pequeno livro (ou será um conto?) que, sem dúvida, vale a pena ler. Transmite uma mensagem lindíssima.
Também disponível algures na web para download.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Excertos



"Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes
recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente,
estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra aquela
vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu."
In: "Bichos", de Miguel Torga