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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Opinião: A Sibila, de Par Lagerkvist


"Não odeias o deus que te tratou dessa maneira, que te fez tudo isso? Não odeias esse ser tão absurdamente cruel?
A velha esperou um pouco antes de responder: parecia refletir. Depois, disse:
Não sei quem ele é. Como poderia, assim, odiá-lo? Ou Amá-lo? Em verdade, parece-me que não o odeio, e que não o amo.
Pensando bem, acho que tais palavras não têm sentido quando se trata dele. Não é como nós e não podemos compreendê-lo. É incompreensível, insondável. É deus.
"



Este livro  foi publicado no nosso país em 1959 e ao longo da leitura não pude deixar de pensar no porquê de Saramago a ter traduzido. Em certa medida, as inquietações religiosas que o autor levanta podem ser comparadas às que Saramago também aborda no Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Neste livro temos duas personagens - o homem que não deixou o filho de deus se encostar na sua casa, durante o calvário, e por isso foi amaldiçoado por ele -  e uma Pítia do santuário de Delfos, mulher que era possuída pelo espírito do deus e através da qual os sacerdotes do templo interpretavam a sua mensagem.



Gostei de ler este clássico (eu gosto de ler clássicos) mas é uma narrativa que pode não prender toda a gente, já que temos as duas personagens a contar a sua própria história, com destaque para a voz da Pítia. Mas levanta algumas questões interessantes, faz-nos pensar e reflectir.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Leituras de Julho

Julho foi um mês de férias, portanto li um pouco mais mas não fiz grandes posts por aqui.
Tenho de destacar dois livros, que foram as minhas leituras de 5 estrelas (pontuação máxima no goodreads) e que penso merecerem uma leitura: Fome e A Pérola que Partiu a Concha.
O primeiro pode não ser uma leitura fácil, em muitos aspectos faz lembrar "O crime e o Castigo" e os dois personagens principais têm alguns traços em comum, a pobreza e a angustia que nos fazem sentir. Mas é um livro que ficou dos meus favoritos do ano.
Já o segundo vale a leitura pela escrita e pelo relato da vida das mulheres no Afeganistão. Para além de ser um livro que prende logo nas primeiras páginas.
Dos livros de 4 estrelas não falei aqui no A Vegetariana, um livro de que gostei e que também trata de conflitos interiores. No entanto, o final fica um pouco em aberto e há respostas que acabamos por não ter.
Sorte foi uma desilusão. é o relato na primeira pessoa da violação da autora, mas apesar do interesse do tema a escrita não prende e tem algumas partes que podemos considerar "uma seca".

Faltou dizer que 4 livros foram escritos por mulheres, 2 por homens.


quarta-feira, 10 de julho de 2019

A ler: Fome, de Knut Hamsun




No último encontro do clube do livro aqui da zona algumas participantes levaram livros para troca.
Um dos que estava em cima da mesa era este, cuja antiga proprietária não acabou de ler, pois não estava a gostar.

É contado na primeira pessoa, um jovem escritor que luta contra a pobreza e contra a fome. Fome que é retratada de forma muito crua e ilustrada, em que o leitor quase sente o mau estar físico do protagonista.

Ele tenta arranjar vários estratagemas para conseguir algum dinheiro para que possa comprar pão, mas raramente consegue.
As suas desventuras (e os delírios de que sofre, possivelmente derivados da má nutrição) podiam levar a que recorresse a atitudes menos honestas, mas ele tem mostrado um carácter integro, algo orgulhoso, mostrando mesmo angustia por não arranjar trabalho e não conseguir ajudar outros pobres como ele.

E angustia estava eu a sentir ontem, por ver que tudo corria mal ao nosso personagem, que quase morria de fome...


Vou sensivelmente a meio e julgo que será uma das minhas grandes leituras do ano!




quarta-feira, 24 de abril de 2019

Opinião: A Gente de July, de Nadine Gordimer


Por vezes há livros que não lemos na altura certa ou com os conhecimentos certos. Penso que este foi um deles.
A história é boa, a escrita também, mas não resultou plenamente para mim.

Neste livro temos uma família de "brancos", em 1981, que foge da cidade onde vive, devido a uma revolução da maioria negra do país contra a minoria branca no poder. Seguem então o seu criado July para a aldeia natal dele, onde vão viver numa das cabanas, longe das mordomias a que estavam habituados e numa realidade bem diferente da sua.
A relação com July fica também diferente e com alguma tensão implícita, por um lado continua com algumas atitudes servis, por outro tenta emancipar-se, "ficar por cima" e vai-se apoderando de alguma forma dos bens dos antigos patrões, como se estes quase fossem prisioneiros daquele local. Tudo de forma educada e ordeira mas nota-se que a família se vai sentindo prisioneira do local, mas agradecidos por terem onde se abrigar da convulsão da cidade.

Tal como nos seus outros romances, Nadine Gordimer em A gente de July aborda o tema do Apartheid, através de uma história que decorre num futuro hipotético, tendo o livro sido banido do ensino já depois da queda do apartheid.


Nadine Gordimer venceu o Booker Prize em 1974 e o Prémio Nobel da Literatura em 1991, e foi uma voz influente contra a segregação durante o regime do appartheid. Mas não só, ela participou activamente noutras "lutas" (racismo, sida ou qualquer tipo de descriminação) sendo uma figura sobre a qual vale a pena saber mais.

Fonte da imagem: Artnet


terça-feira, 23 de abril de 2019

Opinião: Vozes de Chernobyl, de Svetlana Alexievich


A minha segunda experiência com esta autora, vencedora do Nobel da literatura 2015.
Neste livro Svetlana apresenta-nos relatos de pessoas que viveram a tragédia nuclear de Chernobyl, ocorrida em 26 de Abril de 1986.
São relatos crus, sofridos, em que nos apercebemos da tentativa de silenciamento por parte das autoridades, mas também da bravura e coragem de quem primeiro atacou as chamas ou de alguma forma contribuiu para que este desastre não assumisse maiores proporções.
Homens que trabalhavam onde nem os robots aguentavam trabalhar.
Homens que trabalharam sem saber a que radiação estavam expostos ou a quem lhes era dada uma informação incorrecta.
Mulheres que sofreram pelos maridos, que lutaram estar ao pé deles enquanto estes sofriam uma morte horrível, em consequência da radiação a que foram sujeitos. Quando eles próprios estava radioactivos e contaminavam as suas mulheres ou restante família (e que mais tarde vieram a sofrer as consequências).
Homens e mulheres desalojados das suas casas (onde mais tarde passaram esquadrões para matar os animais de estimação), casas que mais tarde foram saqueadas, com objectos que provavelmente entraram no circuito comercial (como saber se temos objectos de metal em casa com metal proveniente de Chernobyl?).
Alimentos que eram proibidos para consumo, mas mesmo assim entraram no circuito comercial.

Muito mais poderia ser dito, muitas mais reflexões podemos fazer a partir da leitura deste livro.
Para completar o tema, recomendo o visionamento do documentário Café de Chernobyl, que em tempos passou na RTP e ao qual já dei  minha opinião aqui.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Atualizei o meu mapa de países visitados

Peru: "O Sonho do Celta" de Mário Vargas Llosa


Um livro muito denso, demorei 30 dias a terminar.
Aborda a vida de Roger Casement, cônsul britânico de origem irlandesa e o seu trabalho no Congo, Amazónia Peruana e activista pela independência da Irlanda.
A descrição das atrocidades cometidas contra os nativos do Congo e Amazónia é impressionante...
Recomendo, pelo valor histórico do livro.
☆☆☆





Rússia: "O Crime e o Castigo", de Fyodor Dostoyevsky


A minha estreia com os clássicos Russos.
Ainda não terminei, mas está a ser uma leitura bem interessante.











Alemanha: "O médico do vale", de Heinz G. Konsalik


Uma re-leitura de um livro que li na minha infância/adolescência.
Escolhi este livro para a maratona literária #livropólio - Casa 15 (ler um livro editado no século XX).
Sou sincera, já não me recordava de nada deste livro. Apesar de estar a gostar, vejo que há ali muito estilo da época: a menina rica apaixona-se subitamente pelo médico pobre, o altruísmo do médico e do padre, o vilão, a figura importante da religião e do padre, etc...









segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Opinião: A Guerra não Tem Rosto de Mulher de Svetlana Aleksievitch





O que dizer deste livro? Parti com expectativas altas que foram totalmente superadas.

Não é um romance, mas sim uma compilação de relatos na primeira pessoa, relatos comoventes, brutais, sobre a experiência feminina na guerra.

Raparigas jovens, algumas nem os 16 anos tinham, alistavam-se na guerra para ajudar a salvar o seu país das garras de Hitler. Com ideias românticas, que seriam capazes, tão capazes como os homens. Queriam ir para a frente da batalha…


“Na primeira vez dá medo… Muito medo… deitámo-nos e fiquei a observar. E então vi um alemão a levantar-se nas trincheiras. Eu apertei o gatilho e ele caiu. Nesse momento eu tremia inteira, ouvia os meus ossos a bater. Comecei a chorar. Quando treinava não tinha problemas, mas nessa altura: eu matei! Eu! Matei uma pessoa que não conheço. Não sei nada sobre ele, mas matei-o.”




Os relatos são impressionantes, relatos de fome, (da população em geral e de quem guerreava), de privações, de esforço físico que muitas vezes as levava a “deixarem de ser mulheres”.

Impressionaram-me relatos de mulheres com filhos, destaco um em particular (mas há muitos mais):

“Passámos alguns dias, semanas, com água à altura do pescoço. Havia connosco uma operadora de rádio que tinha tido um filho à pouco tempo. A criança estava com fome… Pedia o peito. Mas a própria mãe estava a passar fome, não tinha leite e a criança chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham cães … Se estes ouvissem, todos nós morreríamos. Todo o grupo, umas trinta pessoas. Entende? O comandante tomou a decisão… Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou-a ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”


No final os relatos começam a aproximar-se do dia da Vitória, surgem outro tipo de memórias, outro tipo de atrocidades (prisioneiros, torturas, mais fome e miséria, mais bebés e crianças...), mas também de injustiças… a forma como as mulheres foram tratadas no pós-guerra, levadas quase a esconder a sua condição de ex-soldados, o considerar quem esteve preso pelo “inimigo” e sobreviveu um traidor, alvo de suspeitas...

Este foi um livro muito difícil de ler, fui intervalando com outras leituras mais ligeiras… mesmo agora, que já passaram mais de 15 dias de ter terminado esta leitura, torna-se doloroso relembrar alguns relatos…
☆☆☆☆☆


Nunca tinha lido nada desta autora, vencedora do Nobel da literatura 2015, mas sem dúvida que ficou na minha lista de autores favoritos...



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Opinião: O Ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago




José Saramago é um dos meus autores favoritos, já li a maior parte dos romances dele:

e ainda um livro de contos:

O Ano da Morte de Ricardo Reis conta a história deste heterónimo de Fernando Pessoa, que regressa a Portugal quando recebe a noticia do falecimento do grande poeta.
Ao longo do livro são-nos dados vislumbres do que era a sociedade portuguesa nessa época (1935/1936), a politica, as cheias, o culto de Fátima, os festejos do carnaval e ano novo, alguma visão do papel feminino... também recebemos notícias da conjuntura internacional, Espanha, Itália, Alemanha...
No livro encontramos citações à obra de Fernando Pessoa (e seus heterónimos), a Camões...

Como é recorrente nos livros de Saramago, neste também temos uma componente de "ficção cientifica", Pessoa encontra-se com Ricardo e explica que, depois da morte, terá 9 meses para andar na terra, podendo ser ou não visto pelas outras pessoas, pelo que estas duas personagens (mortas ou vivas?) conversam diversas vezes.
Há duas personagens femininas, Lídia (que é também o nome de uma "musa" de Ricardo Reis) e Marcenda, Lídia uma mulher forte, criada na pensão onde Ricardo fica alojado (mas age de uma forma demasiado submissa para o meu gosto feminista, chega a irritar-me algumas vezes...), Marcenda uma mulher jovem, com o braço esquerdo inerte...

A escrita é a habitual de Saramago, parágrafos longos, sem introdução aos diálogos. Mas é uma escrita apaixonante, conseguimos perfeitamente imaginar os cenários descritos. ☆☆☆☆