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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Opinião: A Cadela, de Pilar Quintana

Descrever este livro não é facil, pois é daqueles com histórias aparentemente banais, mas que nos fazem sentir e refletir.
Damaris é uma mulher pobre que sempre desejou ter filhos, sem no entanto o conseguir. Adota uma cadelinha recém nascida, dá-lhe muito amor mas essa relação vai mudar, acompanhando a espiral descendente da personagem. A relação entre Damaris e a cadela é quase de mãe-filha, mas lidar com as expectativas e desilusões nem sempre é fácil.
Rogélio, o marido, no inicio é apresentado como uma pessoa má, que gosta de massacrar os seus cães, no entanto tem atitudes tão ternas e compreensivas que nos leva de algum modo a esquecer a falta de empatia com os seus animais.
Ao longo da narrativa vamos conhecendo o passado de Damaris e outros acontecimentos que ocorreram no local, percebemos que carrega um fardo pesado e esse passado, conjugado com a impossibilidade de ser mãe e o desmoronar do casamento, levam igualmente ao desmoronamento da personagem.
Destaque ainda para as descrições da pobreza local, o estado tempo, fauna e flora locais que, sem serem exaustivos, nos levam a viajar até à Colômbia e quase sentirmos as picadas dos insetos locais.
Um livro muito bem escrito, que se lê num ápice.



terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Ler: Distância de Segurança by Samanta Schweblin,

Comecei ontem, estou quase a terminar e parece-me que vai ser daqueles livros a ficar na memória.
Não tanto pela história em si, mas pelas sensações que transmite.
Estava a ser uma leitura quase frenética, não o terminei apenas porque as letras já dançavam no papel e dessa forma nem estava a aproveitar a leitura.


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

#ViajarComOsLivros: Estatísticas

De acordo com o site https://gauchazh.clicrbs.com.br/especiais/seu-mapa-de-viagens/, desde que faço o registo de nacionalidades lidas :


Em 2018 a maioria foram autores portugueses, norte americanos e ingleses
Em 2019 o cenário está muito idêntico (no entanto tenho variado mais as nacionalidades).



Espero que em 2020 consiga fugir um pouco ao trio Portugal-EUA-Inglaterra e me aventure mais pela América (excepto EUA), Ásia e África. Porque cada país tem as suas particularidades, que se transmitem também através da escrita. E ler é viajar.


terça-feira, 29 de outubro de 2019

Opinião: Dalai-Lama: Autobiografia


A próxima reunião do clube de leitura de que faço parte tem como tema Biografia. Confesso que este não é um género que me puxe muito para ler, por norma não tenho qualquer curiosidade para saber o como foi a vida de pessoas "famosas".
Mas reconheço que estava com uma visão muito limitada das biografias, já que estas podem ser sobre figuras muito interessantes, não propriamente muito famosas ou "da moda". Nada contra com quem leia e goste, simplesmente eu não sinto essa vontade ou curiosidade.
Foi então que me lembrei do Dalai Lama, uma personagem que conhecia pouco: sabia que é o líder espiritual do Tibete, país (ou região) que foi anexada pela China, que vive no exílio e ganhou um Nobel da paz.
Nesta autobiografia fiquei a conhecer melhor o drama que o povo tibetano sofreu (e ainda sofrerá? Tenho de pesquisar, dado que este livro foi publicado há 20 anos), como é que aquele rapazinho de 2 ou 3 anos foi reconhecido como reencarnação do Dalai Lama, como foi a sua educação, a sua ida para o exílio, os usos e costumes deste povo maioritariamente budista e o grande apoio que receberam da Índia, onde foram criadas aldeias para os refugiados e cujo governo os auxiliou bastante.
Não foi um livro fácil de ler, apesar de ter poucas páginas, a letra é muito pequena, a escrita é muito densa, com termos e nomes em tibetano e sânscrito. No entanto, o facto de praticar Yoga-Samkhya (onde são utilizadas algumas designações que surgem neste livro) e a leitura previa do livro Cisnes selvagens ajudou-me a perceber melhor algumas passagens e a formar uma imagem mais clara na minha mente.
Fiquei com vontade de ler outros livros escritos pelo Dalai Lama e outros sobre o budismo e sobre o Tibete.
Ler também é isto, aumentar os horizontes, viajarmos até outras realidades e percebermos melhor o mundo.



segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Leituras de Julho

Julho foi um mês de férias, portanto li um pouco mais mas não fiz grandes posts por aqui.
Tenho de destacar dois livros, que foram as minhas leituras de 5 estrelas (pontuação máxima no goodreads) e que penso merecerem uma leitura: Fome e A Pérola que Partiu a Concha.
O primeiro pode não ser uma leitura fácil, em muitos aspectos faz lembrar "O crime e o Castigo" e os dois personagens principais têm alguns traços em comum, a pobreza e a angustia que nos fazem sentir. Mas é um livro que ficou dos meus favoritos do ano.
Já o segundo vale a leitura pela escrita e pelo relato da vida das mulheres no Afeganistão. Para além de ser um livro que prende logo nas primeiras páginas.
Dos livros de 4 estrelas não falei aqui no A Vegetariana, um livro de que gostei e que também trata de conflitos interiores. No entanto, o final fica um pouco em aberto e há respostas que acabamos por não ter.
Sorte foi uma desilusão. é o relato na primeira pessoa da violação da autora, mas apesar do interesse do tema a escrita não prende e tem algumas partes que podemos considerar "uma seca".

Faltou dizer que 4 livros foram escritos por mulheres, 2 por homens.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Opinião: A noite Sagrada", de Tahar Bem Jelloun


"Um homem não tem nada na origem, é verdade, e nada devia ter no fim. Ora inculcou-se ao homem a necessidade de possuir: uma casa, pais, filhos, pedras, títulos de propriedade, dinheiro, oiro, pessoas... Eu estou a aprender a não possuir."


Escolhi este livro para a #MLVoltaaoMundo15, categoria países árabes - Marrocos, um pouco "às escuras" já que a biblioteca local não tem muitas opções. Entrou também para a categoria "um livro de um autor que nunca leste" do #bookbingoleiturasaosol2019.


Conta a história de uma mulher de cerca de 20 anos, que foi criada e viveu como um homem até à noite em que o pai morre e ela se liberta dessa mentira.
Ao longo do livro somos confrontados com alguma fantasia que ocorre na cabeça dela, tal como quando é "raptada" no funeral do pai por um homem misterioso num cavalo, que a leva para uma comunidade só de crianças, onde se liberta e se descobre enquanto mulher. Outras cenas são algo estranhas, como a a "violação" na floresta (e aqui violação está propositadamente entre aspas), que mais tarde vimos a perceber ter sido encarada por ela como necessária para a sua descoberta. Já quase no final do livro surge a cena que me custou mais a ler, devido à violência retratada.
O percurso dela leva-a a conhecer personagens suis generis (tal como ela própria), terminando a meu ver de forma algo estranha.


Gostei do livro mas não é uma leitura para todo o tipo de leitores, já que é intimista, reflexiva, com fantasia e sexo à mistura. Uma miscelânea que acaba por resultar bem!


terça-feira, 18 de junho de 2019

Opiniões: Demência e Imortalidade

De forma muito resumida, irei dar a opinião conjunta de dois dos últimos livros que li.

Este livro, Demência, andou um pouco na "boca do povo", foram vídeos no youtube, grupos de leitura no goodreads e  publicações em blogs.
Eu conheci-o através do canal da Dora Santos Marques, que no final de 2018 fez um vídeo bastante sentido sobre este livro. Fiquei logo com vontade de o ler mas estava esgotado.
Em 2019 este livro foi reeditado, a Dora fez incluisivé uma entrevista com a autora e foi também ela que me emprestou este volume para ler (temos um clube de leitura em conjunto aqui onde moramos).
Mas voltando à minha opinião, em primeira instância, este é um livro sobre violência doméstica, de vários tipos e em várias gerações, sendo que o que se passou na geração da sogra (Olímpia) algo tão abjecto como impensável (mas de alguma forma verossímil).
Mas é também um livro sobre sobrevivência e resiliência, sobre a demência de uma idosa mas também a demência de toda uma aldeia, que ostraciza uma mulher (Letícia) ilibada pela justiça mas condenada pelos habitantes. Porque o "filho da aldeia" era tão bom rapazinho que era impossível ter feito mal à put@ que o matou!
Mas temos também histórias de amor, em gerações diferentes e de diferentes apresentações.
Gostei da descrição da vida na aldeia (porque eu própria passei muitas férias numa pequena aldeia), da história de amor platónico/pueril de Sebastião e Olímpia. já a história de amor entre Gabriel e Letícia pareceu-me um pouco "forçada" na história. 
Este é sem duvida um bom livro, cheio de nuances e várias camadas. Confesso que a parte final não me encheu muito as medidas, por isso não ter dado a classificação máxima. Se recomendo a leitura? Sem dúvida!


Imortalidade parte de uma premissa interessante: quando uma pessoa nasce faz um teste genético, que prevê a idade da sua morte. os que alcançam determinada fasquia são denominados longevos, passando a integrar um programa do estado, onde têm direito a vários tratamentos e "substituições" que lhes prolongam a vida e a aparência, podendo mesmo viver para lá dos 300 anos. Aliás, a "terceira vaga" aproxima-se, onde está prometida a vida eterna.
No entanto, nem todos estão satisfeitos com a promessa de vida eterna, surgindo o auto denominados Clube do Suicídio, que clama pelo direito a morrer.
A personagem principal, Lea, é uma longeva que aspira pela terceira vaga, possuindo uma carreira de sucesso na bolsa de orgãos e um companheiro com perfil genético igualmente favorável. No entanto, um dia reencontra o seu pai, desaparecido à 80 anos, que vem mais tarde a saber, pertence a ao clube do suicídio.
 Ao longo do livro, e devido a algumas ocorrências do passado, ela é confrontada com uma série de novas informações e dilemas, que a levam a por em causa aquilo em que acredita.
Gostei da premissa da história e mesmo da escrita, no entanto julgo que algumas partes deveriam ter ser mais aprofundadas. Aliás, a vida eterna pode não ser uma bênção nem a morte uma tragédia e estes dois pontos poderiam ter sido alvo de uma maior reflexão.



terça-feira, 28 de maio de 2019

Graphic novel: Monstress - Despertar


Este ano decidi sair da minha zona de conforto, dai ter começado a explorar outros géneros literários.
É o caso das graphic novel, que só comecei a ler este ano.

Esta Monstress - Despertar é o primeiro volume de 3 já editados pela Saída de Emergência
Num mundo alternativo de beleza art déco inspirado na Ásia oriental, eis que nos chega uma história de coragem, vingança e compaixão…
Maika Meiolobo é uma adolescente que sobreviveu a uma guerra cataclísmica entre humanos e arcânicos, uma raça híbrida que descende dos Anciãos. Escravizada por bruxas inimigas que suspeitam dos seus poderes latentes, Maika começa a desvendar o seu misterioso passado e, durante o processo, descobre que tem uma ligação psíquica com uma poderosa criatura de outro mundo.Perante a opressão e o terrível perigo, Maika torna-se caçadora e presa, perseguida por aqueles que desejam usá-la, colocando-a no centro de uma guerra devastadora entre forças humanas e sobrenaturais. Enquanto isso, o monstro no seu interior começa a despertar...

Escrita por Marjorie Liu (Americana com origem chinesa) e ilustrada por Sana Takeda (Japonesa) nota-se a influência asiática nas ilustrações e personagens.
Confesso que ao inicio estava com dificuldade em compreender a história, mas com o avançar das páginas começa a fazer sentido. E a certo ponto surge um gato que nos vai explicar algumas coisas sobre este mundo que estamos a descobrir.
Maika  é uma arcânica mas muito semelhante a uma adolescente humana, que está a tentar descobrir quem verdadeiramente é, acabando por descobrir ter um "monstro" dentro de si a despertar... Aborda temas como a escravidão, a xenofobia, a ética, numa sociedade formada por 5 raças, onde vemos uma forte presença feminina.
Adorei as ilustrações, a história achei razoável...mas talvez seja falta de hábito na ficção cientifica.
No entanto, fiquei com vontade de ler o resto da colecção.

☆☆☆☆


quarta-feira, 24 de abril de 2019

Opinião: A Gente de July, de Nadine Gordimer


Por vezes há livros que não lemos na altura certa ou com os conhecimentos certos. Penso que este foi um deles.
A história é boa, a escrita também, mas não resultou plenamente para mim.

Neste livro temos uma família de "brancos", em 1981, que foge da cidade onde vive, devido a uma revolução da maioria negra do país contra a minoria branca no poder. Seguem então o seu criado July para a aldeia natal dele, onde vão viver numa das cabanas, longe das mordomias a que estavam habituados e numa realidade bem diferente da sua.
A relação com July fica também diferente e com alguma tensão implícita, por um lado continua com algumas atitudes servis, por outro tenta emancipar-se, "ficar por cima" e vai-se apoderando de alguma forma dos bens dos antigos patrões, como se estes quase fossem prisioneiros daquele local. Tudo de forma educada e ordeira mas nota-se que a família se vai sentindo prisioneira do local, mas agradecidos por terem onde se abrigar da convulsão da cidade.

Tal como nos seus outros romances, Nadine Gordimer em A gente de July aborda o tema do Apartheid, através de uma história que decorre num futuro hipotético, tendo o livro sido banido do ensino já depois da queda do apartheid.


Nadine Gordimer venceu o Booker Prize em 1974 e o Prémio Nobel da Literatura em 1991, e foi uma voz influente contra a segregação durante o regime do appartheid. Mas não só, ela participou activamente noutras "lutas" (racismo, sida ou qualquer tipo de descriminação) sendo uma figura sobre a qual vale a pena saber mais.

Fonte da imagem: Artnet


sexta-feira, 5 de abril de 2019

Opinião: A Mensagem na Garrafa de Jussi Adler-Olsen


Já acontece poucas vezes escolher um livro sem saber nada dele, mas este foi um dos casos.

Estava para comprar um livro no olx, passei os olhos pelos outros anúncios do vendedor e vi este. No goodreads tem boa pontuação, é da Dinamarca (país que ainda não tinha visitado) e o preço era simpático.

É o terceiro livro da série Departamento Q, que já tem 7 livros (e adaptações para filmes) mas julgo que apenas 3 estão editados em Portugal: O Guardião das Causas Perdidas (n.º 1), Desejo de Vingança (n.º 2) e A Mensagem na Garrafa (n.º 3). Quando o comprei desconhecia ser uma série, mas fiquei com bastante curiosidade em ler os anteriores.

É um policial/thriler (tenho alguma dificuldade na distinção) com mais de 500 páginas, ao estilo da saga Joona Linna de Lars Kepler, muitas páginas e pormenores (alguns possivelmente poderiam ter sido evitados).

Tem personagens sui generis, alguma dose de humor e um crime interessante a desvendar, cujo interesse foi crescendo ao longo das páginas.

Recomendo vivamente para quem gosta deste género de livros.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Opinião: Persépolis


Esta foi a minha estreia em "graphic novels" para adultos (que é como quem diz, banda desenhada) e não desiludiu.


É um relato autobiográfico que retrata a vida de Marjane Satrapi, a sua infância no Irão, a passagem pela vida em Viena e o regresso ao Irão.
Neste livro somos confrontados com a revolução Iraniana, a guerra, o aumento da repressão sobre as populações (não podem beber, fazer festas, jogar, ... ).
Com um sentido de humor caustico, algumas passagens fazem-nos rir, outras levam-nos às lágrimas mas todo o livro nos faz reflectir sobre a realidade iraniana e os nossos preconceitos por esta zona do globo.
Para além da vida no Irão, relata também as dificuldades do crescimento de uma jovem, dividida entre a modernidade e a tradição, a sua revolta e o voltar às origens.
Sem duvida que recomendo.
☆☆☆☆☆




Persépolis em grego clássico: Περσέπολις; transl.: Persépolis , lit. "A cidade persa"

terça-feira, 12 de março de 2019

Projetos pessoais: Viajar com os livros e Mais Mulheres

#ViajarComOsLivros 
Quando iniciei o blog tive vontade de registar os países por onde ia "passando", isto considerando a nacionalidade dos autores que leio.
Devido a esse desejo, comecei a escolher os livros que leio também pela nacionalidade de quem os escreve.
Em 2018 li autores de 15 países diferentes, com destaque para Portugal (19 livros), EUA (7) e Inglaterra (7).
Este ano já consegui acrescentar 6 países, entre os quais dois países africanos!
Não estou a contar com autores que li no passado, antes de ter blog ou estar na plataforma Goodreads (se contasse com esses, teria mais uns quantos países visitados).
Acho que este meu desafio pessoal já merece uma etiqueta só para ele - #ViajarComOsLivros parece-me bem, já que é o nome que dou ao meu mapa de viagens (ali na aba direita).
A pouco e pouco vou atualizar no blog as publicações que se relacionem com este projeto pessoal, nomeadamente os livros relacionados com primeiras leituras dessa nacionalidade.

A Cláudia, do blog A Mulher que Ama Livros tem um desafio idêntico, a que chamou "do quarto para o mundo". Foi onde li a opinião do livro A Menina que Sorria Contas, que me fez querer lê-lo (e acredito que ainda vá lá buscar inspiração para mais alguns países).



#MaisMulheres

Outro projeto pessoal consiste em ler mais autoras femininas, pelo que vou criar igualmente uma etiqueta aqui no blog, para registo de sempre que leia um livro escrito por uma mulher (já tenho o #marçofeminino mas neste caso irá durar o ano inteiro).
Em 2018 li 19 livros escritos por mulheres, 34 por homens e 3 por uma dupla (Lars Kepler, pois claro). Nunca tinha reparado nesta tendência de ler no masculino, algo a que comecei a prestar mais atenção ao ler alguns textos do blog Desabafos Agridoces. Porque lemos mais homens? Não será por serem melhores, certamente. Talvez porque são mais divulgados? Por terem mais facilidade em publicar? Não sei... mas numa época cheia de antagonismos como a nossa, em que de um lado se grita pela igualdade de géneros, do outro criam-se programas de lixo televisivo em que as mulheres são tratadas como gado (com a conivência de outras mulheres) se calhar todas nós temos de passar a ser um pouco mais feministas ou, pelo menos, dar mais voz ao nosso género

Opinião: A menina que sorria contas, de Clemantine Wamariya

“É estranho como se começa por ser uma pessoa longe de casa e se passa a ser uma pessoa sem casa. O lugar que, supostamente, nos devia receber expulsa-nos. Nenhum outro lugar nos acolhe. É-se indesejado, por toda a gente. É-se um refugiado.”


Mais um livro de não-ficção e mais um tema "pesado".
Clemantine era uma criança de 6 anos quando teve de fugir de casa com a irmã, de 16, por motivos que na altura não compreendeu.

Foi quando os pais começaram a falar baixo, a ficar mais por casa, os vizinhos começaram a desaparecer.... fuga causada pelo inicio do genocídio do Ruanda, uma história sangrenta que parece quase impossível: pessoas que matavam desconhecidos, vizinhos, amigos e até familiares, simplesmente por terem uma etnia diferente!

No livro temos uma Clemantine atual (cerca de 30 anos) que conta a fuga com a irmã Claire, como se sentia assustada, abandonada, carente de afeto mas impossibilitada de também ela dar esse afeto, devido às constantes fugas, ao constante medo.
Ela e a irmã andaram a circular entre campos de refugiados, entre diversos países (mais de 4000 km). Claire casou teve filhos, mas percebemos que Claire é que é a guerreira, é quem toma conta da família, através do seu empreendedorismo. (O marido é um parvalhão que lhe bate e a trata mal). E é graças à proactividade de Claire que elas conseguem ir para os Estados Unidos da América, onde Clemantine é acolhida por uma família e consegue assim estudar e tirar um curso superior.

O livro alterna entre recordações do passado, da fuga, da vivência nos campos de refugiados e outros locais igualmente tenebrosos, da fome, dos piolhos, de outros parasitas que as atacavam, ... e recordações do inicio da vida na América, do seu percurso escolar, da revolta, o fingir que tem tudo controlado quando afinal está completamente destruída por dentro.

Logo no inicio do livro temos o reencontro das duas irmãs com a família, num programa da Oprah. Apesar da emoção, percebemos que são todos estranhos uns para os outros, todos têm o seu trauma interior que, percebemos mais tarde, não conseguem partilhar uns com os outros. 

Outros pontos de destaque do livro: 
- o tratamento dado às mulheres na sociedade dela (cuidado para não seres violada, pois ficas "estragada"; aguenta o teu marido que te bate, quando os filhos crescerem ele deixará de o fazer, pois quer agradar aos filhos; os "miúdos" de galinha que elas nunca tinham provado, pois eram reservadas aos homens, tal como a comida, que era prioritariamente dada a eles, ....). 
- as leituras que ela faz de temas ligados ao holocausto, fiquei com mais algumas sugestões de títulos/autores a ler.
- a descrição de alguns hábitos da sociedade Ruandesa


Um livro que merece a sua leitura.
☆☆☆☆☆

segunda-feira, 4 de março de 2019

Opinião: Escrava, de Mende Nazer

Este livro conta a história real, que infelizmente ainda acontece no Sudão: crianças e mulheres que são retiradas das suas aldeias (raptadas) para serem vendidas como escravas.
Foi o que aconteceu a Mende, que pertencia à tribo Nuba, no Sudão do Sul. Retirada à força da sua família, num assalto violento à sua aldeia, foi raptada e vendida como escrava para uma família árabe
do Sudão. Uma prática que percebemos ser comum nesse país, onde ocorre uma grande descriminação sobre estas tribos e minorias étnicas.
Com cerca de 12 anos, Mende deixa de ter infância, passando a trabalhar dia e noite na casa dos seus "donos", que apenas lhe "oferecem" dormida num barracão sem quaisquer condições, restos das refeições e muitos maus tratos físicos e verbais.

No seu relato, percebemos que a vida de escravatura vai a pouco e pouco destruindo o seu ser, para além de deixar de ter infância é como se deixasse de ter identidade própria. Ela refugia-se nas memórias felizes da sua infância, numa tentativa de manter a sua sanidade mental.
Só quando é enviada para Londres (passada como escrava para a irmã da anterior "dona") é que consegue escapar.

É realmente um retrato perturbador e é também perturbador pensar que nos dias de hoje esta é uma realidade de muitas crianças, cuja infância lhes é retirada.
Na primeira parte do livro temos uma descrição da infância de Mende onde surge o relato da sua circuncisão (impressionante), mas também vemos que teve uma infância feliz, cheia de sonhos como qualquer criança. A segunda parte é o relato da vida de escravatura, onde acredito que nem metade do que sofreu seja relatado.

Triste pensar que esta é uma realidade que ainda existe, milhares de crianças (e mulheres) que são forçadas à escravatura, de forma quase aberta nessa sociedade. Sem direitos, sem identidade.



☆☆☆☆☆

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Opinião: "Pássaros Feridos" de Colleen McCullough

Num destes dias perguntavam-me como é que eu escolho os livros: sem grande técnica, confesso.
Este livro, foi escolhido com base em quatro critérios: "visitar" um país a que ainda não tivesse ido (a autora é Australiana), ser escrito por uma mulher, estar disponível na minha biblioteca e ter boa pontuação no Goodreads.

E que boa surpresa tive!
Adorei a história: uma família extremamente pobre, 7 filhos, dos quais só uma menina, embarca numa viagem até à Austrália para uma nova vida (onde nascem mais 3 rapazes).
A história centra-se, a meu ver, nas personagens femininas: Fee - mãe de família, atormentada por um segredo que mais tarde vamos conhecer, Maggie - a única filha do casal, ostracizada pela mãe (por ser mulher), Justine, a filha de Maggie, dona de um temperamento forte desde que nasceu.
Outra história central é o amor proibido entre Maggie e Ralph (o padre local), mas poderíamos falar do amor especial entre Paddy e Fee ou do amor difícil entre Justine e Rainer, em que é preciso uma década, talvez, para que este se concretize.

E há o amor a Drogheda (a fazenda na Austrália), o amor a Deus de Ralph e Dane (o filho de Maggie), o casamento sem amor de Maggie e Luke....
Enfim, este livro tem várias histórias sobrepostas, personagens interessantes, cheias de garra mas também de alguma forma atormentadas.

Recomendo vivamente. ☆☆☆☆

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Terminados em Janeiro

O Sonho do Celta - 438 páginas, Peru
A minha avó pede desculpa - 336 páginas, Suécia
Harry Potter e a pedra Filosofal - 317 páginas, Inglaterra

Admirável mundo novo - 254 páginas, Inglaterra

Uma re-leitura de um livro que me marcou (li talvez à uns 20 anos). Agora, com outros olhos, vejo que a evolução da sociedade, inventada por Huxley, é igualmente machista (as mulheres pneumáticas ?!?), igualmente marcada por crenças, já não em Deus, mas em Ford.
A ausência de liberdade marcada logo na concepção.
Um livro que me continua a fascinar.


☆☆☆☆




O médico do Vale - 223 páginas, Alemanha

Igualmente uma re-leitura. Não me recordava de nada deste livro, portanto li-o como se fosse uma leitura nova.
Um médico e um padre, numa terra perdida algures no México (e assolada por uma seca extrema), lutam contra o homem mais poderoso da região, Jack Paddy, que detém o poço com mais água e dá emprego à população (na plantação de drogas). 
Nesta aldeia apenas existem 3 poços, o de Jack, o do padre e o do hospital, sendo que estes últimos estão praticamente secos (provavelmente devido ao de Jack).
Esta "luta" trava-se com base na água, Jack não distribui água do seu poço, mas gasta-a na piscina, nos jardins. Chega a ponto de "sabotar" a água do hospital.
Há igualmente uma história de amor, uma bela rapariga que surge na aldeia, cujo pai (vem ela a descobrir) é também um barão da droga. Há a cólera, a crença na igreja, a crença na medicina, a morte, o amor, a corrupção. 
Este livro lê-se relativamente bem, pode não ser uma obra-prima mas levanta algumas questões bem atuais, em especial a da água: um bem que nas sociedades modernas damos por adquirido mas que quando falta pode originar revoluções!
☆☆☆



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Atualizei o meu mapa de países visitados

Peru: "O Sonho do Celta" de Mário Vargas Llosa


Um livro muito denso, demorei 30 dias a terminar.
Aborda a vida de Roger Casement, cônsul britânico de origem irlandesa e o seu trabalho no Congo, Amazónia Peruana e activista pela independência da Irlanda.
A descrição das atrocidades cometidas contra os nativos do Congo e Amazónia é impressionante...
Recomendo, pelo valor histórico do livro.
☆☆☆





Rússia: "O Crime e o Castigo", de Fyodor Dostoyevsky


A minha estreia com os clássicos Russos.
Ainda não terminei, mas está a ser uma leitura bem interessante.











Alemanha: "O médico do vale", de Heinz G. Konsalik


Uma re-leitura de um livro que li na minha infância/adolescência.
Escolhi este livro para a maratona literária #livropólio - Casa 15 (ler um livro editado no século XX).
Sou sincera, já não me recordava de nada deste livro. Apesar de estar a gostar, vejo que há ali muito estilo da época: a menina rica apaixona-se subitamente pelo médico pobre, o altruísmo do médico e do padre, o vilão, a figura importante da religião e do padre, etc...









quarta-feira, 27 de junho de 2018

Opinião: O Deus das Pequenas Coisas - Arundhati Roy





Em primeiro lugar quero realçar a escrita da autora: é maravilhosa, poética, com ritmo, com recuso a diversas figuras de estilo. 
Cativante.


"Chovia quando Rahel regressou a Ayemenem. Oblíquas cordas prateadas estoiravam sobre a terra solta, sulcando-a como pólvora. A velha casa na colina usava o telhado inclinado com beiral como quem usa um chapéu de aba descaída enterrado até às orelhas. (...) O jardim selvagem e pujante estava repleto do sussurro e frémito devidas diminutas. (...) Rãs amarelas, enormes e esperançadas, navegavam pelo lago escumoso à procura de parceiros."




Este livro gira à volta de dois gémeos biovulares e de um terrível acontecimento na sua infância.
A história vai sendo contada em lapsos de tempo, ora estamos no presente, ora saltamos para o passado, sendo que nem sempre é fácil acompanhar a acção. É, portanto, um livro para se ler com atenção.

Com criticas nas entrelinhas à sociedade indiana - o sistema de castas, a pobreza, a sujidade, a corrupção, a violência da policia - ao papel da mulher - a mulher servil, a mulher divorciada que não tem lugar em lado nenhum, ficando dependente da boa vontade dos homens da família para sobreviver... a mulher que sofre de maus tratos pelo marido (o que percebemos ser encarado como "normal" naquela sociedade).

É também uma história de amor, a dos gémeos pela mãe Ammu e por Velutha, o de Ammu por Velutha - o intocável, o de Chacko pela ex. mulher Margaret, o de Baby Kochamma pelo Padre Mulligan.

Um livro complexo, uma história envolvente. Recomendo
☆☆☆☆