sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Opinião: Breviário das Más inclinações, de José Riço Direitinho

Antes de a enterrar de bruços, o sacristão atirou uma foice por cima do beirado da igreja. Era a sétima pessoa a morrer desde a chegada das febres, no inicio de Dezembro. De maneira que o sétimo morto tinha de descer à terra de bruços, dentro do caixão, para esconjurar a morte.




Um livro que achei delicioso, não tanto pela história em si mas pelos usos e costumes antigos que relata, as mesinhas e ervas que tudo curam, os mitos e superstições, a linguagem de um Portugal rural do tempo dos meus pais e avós.  E não esquecer a existência de lobos e javalis, algo que os meus pais também me contam da sua infância e que vi retratado neste livro.
A história é a do nascimento, vida e morte de José de Risso, filho de um pai que nem sabe que o concebeu, cuja mãe morre horas após o seu nascimento. Nasce com a marca de uma folha de carvalho nas costas (e a mãe ainda tem tempo para se aperceber que no seu avental de todos os dias tinha uma folha no bolso, que certamente causou essa marca no filho), no dia do seu baptizado o padre deixa cair a água benta no chão (prenuncio de má sorte) e logo em pequeno gosta de ver as mulheres nuas a tomar banho no rio (um devasso que desde pequeno mostra as suas más inclinações).
Ao logo da sua vida tem premonições, cura pessoas, mas também faz mal a outras tantas.
Ao ler este livro recordei histórias e vivências da minha infância, cujas férias eram passadas na "província", a desfolhada, a matança do porco, as superstições, as festas... o que acredito, tenha contribuído para gostar tanto deste livro.

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