Estas sugestões surgem de blogs literários, notícias de jornal, vídeos do booktube ou simplesmente de conversas com outros amantes da leitura (infelizmente cada vez mais raros).
Aqui estão alguns...
- Natalia Ginzburg
Natalia Ginzburg (1916 - 1991), judia, é uma das mais expressivas autoras do pós-guerra em Itália. Foi colaboradora da editora Einaudi durante muitos anos, mantendo contacto com expoentes da cultura italiana como Cesare Pavese e Italo Calvino. Nos seus primeiros escritos percebemos a influência de autores russos, em especial de Tchekhov. O cerne das suas narrativas é o ambiente doméstico: os relacionamentos e conflitos de um núcleo familiar. Aos 75 anos, foi eleita deputada independente e exerceu as suas funções no Parlamento italiano. Natalia Ginzburg é mãe de Carlo Ginzburg, historiador, antropólogo e especialista na análise dos processos da Inquisição nos séculos XVI e XVII.
in: Livros Cotovia
"Na casa de meu pai, quando era menina, à mesa, se eu ou meus irmãos virávamos o copo na toalha, ou deixávamos cair uma faca, a voz dele trovejava: — Não sejam malcriados! Se molhávamos o pão no molho, gritava: — Não lambam os pratos! Não façam porcarias! Não façam melecas! Para meu pai, porcarias e melecas eram também os quadros modernos, que não podia suportar (...)
"
"Léxico Familiar" in: Companhia das letras
- Golgona Anghel
Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.
Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória. "
In: Estúdio Raposa
- Possidónio Cachapa
Escritor, argumentista e realizador, português.Autor de diversos romances, contos e novelas, entre os quais se destacam Nylon da Minha Aldeia (1997), adaptado ao cinema, e Materna Doçura (1998), além de diversos contos, crónicas, livros infantis e peças de teatro.
Entre outros filmes realizou Adeus à Brisa, sobre a vida e obra de outro escritor, Urbano Tavares Rodrigues.
"Aqueles que afirmam existir mais coisas no céu que na terra, têm razão e não têm, por serem ambos a mesma coisa, embora em planos inversos. Todas as almas sabem disto, quando estão no etéreo, à espera de reencarnar, mas depois esquecem-se, quando mergulham no limbo e se agarram ao corpo mirrado de uma coisa viva que há-de ser.
E, tenho para mim, que as beatas não fazem por mal quando batem no peito e censuram o resto do mundo por não ser igual a si. Buscam, talvez, um comportamento livre dos corpos que as aproxime do que elas foram um dia: uma coisa diáfana e sem corpo, desprendidas da realidade da carne."
'Viagem ao Coração dos Pássaros', in Citador
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