Sou fã de José Saramago, já li diversos romances, pelo que para o desafio 15 da #ML122dias resolvi escolher um livro publicado por este autor. Consultando a Wikipédia e o site da Biblioteca Municipal, optei por este livro de contos. Foi também a minha primeira experiência (que me recorde) com esta tipologia de escrita.
Este livro contém 6 contos:
- A Cadeira: primeiro conto, onde é fácil perceber uma clara alusão à queda de Salazar. Confesso que foi difícil entrar nesta leitura, às tantas só pensava “mas quantas páginas são necessárias para descrever uma simples queda de uma cadeira?”. Mas depressa percebi o meu erro: estava a ler aos poucos, um bocadinho à hora de almoço, mais um bocadinho enquanto esperava, mais um bocadinho daqui a pouco… No entanto é um bom conto, Saramago usa diversas alegorias para contar a queda da cadeira, o Anobium que se torna no Buck Jones, a alusão ao fim da ditadura, à forma como descreve o ditador que se vai sentar na cadeira e à opinião do autor acerca do mesmo:
Deixemos porém este pó que não é sequer enxofre, e que bem ajudaria o cenário se o fosse, ardendo com aquela chama azulada e soltando aquele seu malcheiroso ácido sulfuroso(...).
- Embargo: este conto fala da dependência do Homem face ao automóvel, com a personagem principal a ficar presa ao seu carro, como se este não o deixasse sair do seu interior.
- Refluxo: uma “fábula” sobre um rei que não quer encarar a morte e manda que todos os mortos sejam encaminhados para um cemitério único.
- Coisas: este conto fez-me lembrar, em parte, o livro “Admirável Mundo Novo” (na questão da sociedade organizada por castas) e uma série futurista que vi em tempos na rtp2, Trepalium. Trata-se de uma sociedade futurista, onde cada pessoa tem uma letra que a classifica (e define os seus privilégios) e onde os objectos possuem uma espécie de “vida” (o sofá com febre que leva injecções para se curar, o marco dos correios que desaparece, …). Achei o final surpreendente.
Não tínhamos outro remédio, quando as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.
- Centauro: a história do último centauro, metade homem, metade cavalo. Como se fossem dois seres presos no mesmo corpo.
- Desforra: um conto muito curto, um amor singelo.
Saramago é um escritor de histórias inverossímeis, a realidade anda de mãos dadas com a ficção e a forma como descreve as situações por ele imaginadas é muito boa.
Destes contos, o último foi o que gostei menos, parece-me que foi colocado ali como antítese dos restantes (já que começa com alguma violência e termina com a imagem de um amor puro e águas calmas), uma espécie de conclusão do livro. Gostei bastante de “As Coisas”, o “Embargo” e o “Refluxo”.
☆☆☆☆
Sem comentários:
Enviar um comentário